quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Olá! Já sei porque fizeste o que fizeste

Olá! Já sei porque fizeste o que fizeste
E até to diria mas será o nosso segredo.
Não temas porque esta mensagem é um teste
Às aptidões daqueles que fogem do medo
Como eu fujo de certos lugares isolados.

Não tenho medo de ti agora que sei quem és.
Antes não tinha porque pensava te conhecer...
No dia em que finalmente me deste com os pés
Doeu-me todo o corpo de tanto estremecer
Pois deram-me arrepios gelados que adorei!

"Um dia não são dias" ouço tantas vezes dizer
A pessoas que vagueiam como as ondas do mar...
Idos os dias em que nos enchiamos de prazer
E aqueles em que continuávamos a tentar amar
Ficou aquela espuma sobre o teu moreno areal...

O sal da vida, o que nos define, são os momentos
Que nos distinguem daqueles que não questionam
O porquê de tudo o que nos rodeia... Tormentos
São esperanças dum Mundo melhor mas que me tornam
Apenas mais um alienado com a boca sequiosa...

15-09-2008
(in http://ansam518.files.wordpress.com/2011/03/the-number-27.jpg)

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Tenho saudades dos campos de trigo

Tenho saudades dos campos de trigo
onde corria sem rumo mas contente,
em nada pensava e agora não consigo
deixar de pensar, descansar a mente...

Ir sempre em frente era o melhor caminho,
não havia espaço para quaisquer enganos,
mesmo estando não me sentia sozinho,
são as melhores memórias que guardo há anos...

Tão longe e tão perto,
sei que o mais certo
é não lá voltar;
dourado deserto,
um sonho aberto
que me dá bem-estar,
mas quando acordo
e disto me recordo
dá vontade de não despertar...

Tenho saudades dos vários insectos
que à minha volta se coleccionavam,
desde aí passei por vários aspectos
que por esses dias nem se equacionavam...

Sorriso fácil, tudo era aprazível,
amigos eram todos os que avistava,
a minha voz doce era sempre audível
e estava sempre bem onde sempre estava...

Tão longe e tão perto,
sei que o mais certo
é não lá voltar;
dourado deserto,
um sonho aberto
que me dá bem-estar,
mas quando acordo
e disto me recordo
dá vontade de não despertar...

Tenho saudades do cheiro da terra
que húmida se evaporava no ar,
e se é certo que toda a gente erra
erro eu em tardar a regressar...

Paz instalada, ouço bem a cigarra,
fresco numa pedra à sombra instalada,
desato a correr e ninguém me agarra,
liberdade tão boa no tempo estacionada...

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Silêncio.

Silêncio.







Silêncio.






Silêncio.





Silêncio.




Silêncio.



Mais... silêncio.



Mais...



Silêncio...



...



Posso ouvir tudo com clareza mas só ouço... silêncio.




Assim estivesse surdo e ouviria mais do que silêncio...


Pois que não haveria silêncio há minha volta, apenas na minha mente,
e contudo este silêncio que me abraça está em mim tão presente...


E silencia-me.


Podia falar mas para quê?!


A parede responderia, é verdade,
a cada vibração reflectida,
mas tenho aquela saudade
de ver uma ideia debatida
e a parede só me dá mais do mesmo,
só me dá a minha opinião...

E distorcida...

E quero outras...

E não as tenho...


Silêncio...


Onde me escondo...


Que me esonde...


Vou para onde?

Neste buraco...


Silêncio...

Melancolia.


Desespero.

E porquê?

Nada se passa,
que calmaria,
era só isto que eu tanto queria
e agora que o tenho, como me sinto?!

Silencioso e extinto!

Extingui-me, como uma luz que definha até desaparecer...

Como um lume que crepita até apagar...

Devagar....


Muito devagar...

Até que nada se vê,
nada se ouve,
nada aquece...
E a força dos homens desaparece...

Imenso, é este silêncio.

Gigante.

Intenso.

E até pensar faz barulho.

Pensei nisto.

E isto desfez a paz que me consome.

Tenho fome.

De silêncio.

Quero voltar
a estar
em silêncio.
Sem pensar.
Sem me alimentar
nem alimentar a esperança
de um dia voltar a ouvir
uma voz que seja
pois estou calado
quem me ouve
são os outros e nunca eu...

Quem os ouve sou eu
e não os ouço
e então o silêncio é extremo...

Deixem-me estar em silêncio...

Para sempre...

Sempre...

Sempre...

Sempre...




Às voltas com o tempo...

Chovem raios de sol,
nas paredes do meu quarto,
e acordo do sonho,
e afinal chove mesmo...
mas água! Claro!
Clara!
Cristalina!
Só que é ácida!
Azar, azar,
não a quis provar
e pareceu-me boa
para tomar
um banho
sem gastar a canalização!
E... tomei!
O banho!
Com a água da chuva!
E... gostei!
Apesar de estar fria!
Mas...
hey Pedro, manda sol!
Manda sol!
Só para mim!
Só hoje!
Vá lá...
Vá...
Eu desnudo-me para ti!
Vá lá...
Vá...
Não vou insistir,
não vais resistir
quando te disser
a razão de tal paz!
Paz! Paz! Paz!
E chove, chove,
chove mais...
E é Verão!
Verão!
Verão como é
o Inverno!
Gelado!
Ai não, aquecido!
Derretido!
E algures
no meio do caminho
as folhas caíam
mas era da chuva
ácida
e não do
Outono!
Camada de ozono!
Desfeita!
Flores! A ...
desabrochar!
Devagar...
Devagar...
Devagar...
Ui ui ui...
Já está,
já é Verão!
Não, Primavera!
Não, espera,
não sei!
40 graus
mas é Janeiro?!
São rosas, meu senhor,
serão...
Tudo pode ser agora...
Agora?
Quando?
Já?
Já já?
Já já já?
Não tenho tempo para isto...
Não...
Tempo.
Com tempo.
Tem tempo.
Há tempo.
Foi tempo.
Será tempo.
A tempo...
Tempo...

Alquimia sentimental

Alquimia sentimental, tendo uma pedra em vista,
não a filosofal, uma sentimental que não me resista;
como posso saber se há ouro no teu coração empedernido?
Será que é frio por ser de metal ou por já ter sofrido?
Eventualmente como o coração de muita gente
que sobreviveu à traição de um fogo quente
onde os humores se evaporam no ar, destilados,
onde os amores perdidos foram já encontrados...

Quero uma poção fundamental, não me vendam a banha da cobra,
um metal tão resistente que seja pau para toda a obra,
quero viver para sempre, ou até encontrar o que procuro,
então verei a razão e terei feito o destino que tanto auguro.
Onde está o remédio para tudo, minha deusa Panaceia,
se a luta é constante haverá uma Themis que a premeia?
Chorei lágrimas de prata sobre o meu cadinho de porcelana
onde macerei folhas da árvore-de-judas por quem me engana...

Já me cansam aqueles que brincam no fogo, os charlatães,
pensam que ignoro o seu jogo... Uns da areia são capitães,
perdidos num Mundo inconsequente, outros são da areia grãos,
inconsequentes pela sua pequenez mas somos todos irmãos,
dizem os crentes, pois os alquimistas dizem só liberdade!,
mas da prisão dos sentimentos escapará alguém com saudade?
E o fole incentiva a chama com que se encarvoa o caldeirão,
e os sentimentos que se complexam quão complexos serão?

Agradecimento especial à Filipa Mendonça, cuja alquimia sentimental continua em estudo...

domingo, 22 de julho de 2012

Homenagem a "La Maja Vestida" com pomenores da actualidade que justificam o interesse superior no quadro que se me apresenta

Não vou estar aqui com delongas
porque o assunto é sério!
Sim, foram as pernas longas
que me tiraram do sério!
A sério, não precisas de mo perguntar.
Não, a sério, deixa-as estar
mas vê lá se tiras as sandálias
de cima da cama! É mesmo necessário?
É que essas flores... são dálias?
Não... são rosas? Pelo contrário,
a pose não está pouco interessante...
Bem, o pormenor do calçado é irrelevante.
Mas assim nem se notam as flores
contigo a tirar-lhes o brilho...
São pálidas e por falar em cores
lá voltam as sandálias a dar estrilho
nesse vermelho vivo. Ou é carmesim?
Agora fiquei na dúvida. Avancemos.
Sabes que o meu maior interesse é em mim,
sou humilde mas modéstia à parte,
temos de ter interesse no que vemos
e, como se diz, quem parte e reparte...
Mas não te partia, o melhor são as pernas
mas o resto também é interessante
que eu no fundo até gosto da atitude
e tal... O vestido é provocante,
e contemplá-lo-ia amiúde,
mas tens de encher melhor isso,
sendo-te muito sincero;
tenho é de quebrar este enguiço
de não ter aos detalhes total acesso,
não que seja má a resolução, espero,
sabes que sou um analista, confesso,
analiso tudo, e no fundo será renda?
Fica lá muito bem! Os meus parabéns!
Afinal pode ser que de ti algo aprenda
com tanto bom gosto na apresentação!
Quanto ao veneno que sempre tens,
bem, nunca o vi tão evidente!
Que já estás da cor que eles são
e a cauda dissimula-se mas está presente,
quase a vejo no ar, à espera da presa,
ai que bem que tu os pões em sentido!,
sei bem que é essa a tua natureza,
mas outrém porventura menos esclarecido
com certeza que se punha a jeito!
O teu disfarce é quase perfeito!
Quase porque eu o descobri! Agora!
Ambos sabemos que há muita carne lá fora
mas qual Maja vestida, qual quadro de Goya?,
será que alguém vai na tua paranóia?!
Contudo, é um belo quadro, cativante!
Uma boa inspiração, quase até excitante!
Que estás a magicar, com esse ar tão sereno?
Aposto que depende para onde balança o veneno...
;)

Uma dor lancinante no osso sacro

Diz o povo sábio, com tal indiferença,
assim: "cada cabeça sua sentença",
e tem razão, pois há senso no comum,
há tanto no vulgar que é, só, nenhum.

Inebriado já pela bem-querença,
a inédita droga, na tua presença,
esfuma-se, bela, no ar oxidante,
artefactual estado dilacerante.

A paixão repete-se a todo o instante
como uma faca aguçada, penetrante,
como um relógio que não se regula,
adiantado, desde a pele até à medula.

Uma dor lancinante no osso sacro
com que, orgasmicamente, me massacro;
venho-me em ti com igual satisfação
à que encarno no papel de realização.

Filmado quem o suporia original?,
tal o conteúdo surreal, marginal,
eventualmente presente no teu peito
úbere, com que o povo é satisfeito.

Quem é detentor de tanto conhecimento?
Quem é o ocaso? O ócio? O esquecimento?
Um momento só de verdadeira paz,
um monumento só onde a verdade jaz.

Desliga-o, já, recolhe-lhe todos os cacos
e atesta-lhe de remédio os buracos
pois há quem tenha tido muitas doenças
apesar de este contexto recusar avenças.

Porcelana, cambraia, enfim, um brocado
pungido freneticamente, não depurado,
uma beleza incontestada mas gasta,
por que é que alvo algodão não te basta?!

Visitante 5000

Este poema é dedicado à Sofia;
diz-se que sempre alcança quem porfia,
e uns obtêm-no de forma bem subtil:
conseguiu ser o visitante 5000!

Há sempre razões para uns porquês,
não queria este poema, por timidez,
mas apresentou as provas requeridas
e as promessas são para ser cumpridas!

Ambos, não acreditamos em magia,
protegidos pela mesma astrologia;
basta que tudo seja bem ordenado
para se poder viver mais descansado.

Descansado demais, vai por mim, acredita,
que este efeito na pele até irrita,
não menos do que picadas de insectos,
que sentes, como sonhos bem concretos.

Este é nem o último, nem o primeiro,
má memória, boa fortuna e não é dinheiro,
ai os ciúmes, que são até pecado,
escritos de mim todos têm um bocado.

Serão as palavras um mal necessário,
espero também a estas um comentário,
estas são só tuas, se não me apoquentas,
minha fiel amiga de leituras atentas.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Memorial do Convento - José Saramago

Ao contrário da maioria, o meu primeiro contacto com Saramago não foi através deste livro mas sim "A Jangada de Pedra". Prefiro o segundo, ou seja, o primeiro que li, entenda-se, mas, como se diz, "não há amor como o primeiro"... São dois livros fantásticos, contudo, e espero continuar o meu estudo da obra de Saramago. Obrigado Lisete por me cederes a obra, boa leitura Marta que a estás a ler.

Começo já por criticar o facto de ser um livro de leitura obrigatória no 12.º ano (bem, nas escolas que o escolheram). A mim coube-me a "Aparição" e daí o meu contacto tardio com o nosso Nobel. Que o romance de Vergílio Ferreira é de qualidade inferior, acho que não há duvidas; de igual modo, o livro de Saramago escolhido também me parece demais para jovens imberbes. Algo a meio caminho eu recomendaria, e a nossa literatura é riquíssima; os nossos decisores nem tanto.

O meu receio prende-se com a leitura difícil, nomeadamente num primeiro contacto, nomeadamente nas primeiras páginas. Creio que isto demoverá muitos do prazeroso acto de ler o livro; convenhamos que há muito a fazer para criar bons hábitos de leitura na nossa população, população jovem incluidíssima e esta obra parecerá aborrecida e, acimda de tudo, difícil e impenetrável para muitos... É uma pena se a determinação for baixa pois a obra é de qualidade elevada e, se assim o quiserem ou conseguirem, dá para reflectir e muito sobre o nosso pequeno país. Há problemas actuais que já existiam no antigamente e que vão continuar a existir enquanto não nos olharmos ao espelho e decidirmo-nos a mudar. E se os nossos políticos são péssimos, e sempre o foram, de um modo geral, também a atitude do povo é condenável, sempre subjugado a medos vários, sejam os da fogueira, naqueles tempos, sejam os do desconhecido, então, agora e sempre. Na única vez que nos aventurámos no desconhecido, uns verdadeiros empreendedores (termo que está na moda), conquistámos um império sem igual. Depois de o conseguir, estagnámos... Até hoje.

Para quem ainda não percebeu, o D. Sebastião nunca vai voltar! É a nossa inércia e resistência à mudança, é a nossa complacência, a nossa subjugação ao poder, é um convento construído com mão-de-obra escrava, é a Inquisição, é a falta de cultura de um povo, a falta de educação, é a condenação da diferença e a inveja de vermos os nossos a serem melhores do que nós; é o egoísmo, é uma jangada de pedra à deriva, de facto, e talvez separada de Espanha, somos uma ilha na Europa...

Um rei que vive acima das possibilidades (o rei, não o povo, atenção a esta fina distinção), uma igreja dogmática, inquisitória e sedenta de sangue, dinheiro e poder, "pão e circo", como uns séculos antes, a manterem o povo, escravizado, ocupado, inculto e dominado. Mais de dois séculos depois, e após a mudança de milénio, só mudam alguns pormenores pouco relevantes. Já não se enchem os touros de explosivos, "apenas" se espetam bandarilhas no dorso; já não há "bruxas" condenadas à fogueira pela Santa Inquisição, apenas um entorpecimento geral no país com maior consumo de anti-depressivos de toda a Europa; já não se recrutam escravos para construir conventos, faz-se de toda a população escrava, com promessas de "isto vai melhorar" e nunca melhora, por que será?, se há mais de 200 anos que não melhora, se não pontualmente, em episódios bonitos e aplaudidos, pequenos desvios que não nos tiram deste caminho de estagnação, hipocrisia e corrupção; já não temos um rei boémio, ocioso, néscio e desligado do seu povo, temos políticos boémios, ociosos, néscios e desligados do seu povo. Tudo igual, portanto.

Um Padre visionário que acaba por ter de fugir da Inquisição, um ajudante maneta (consequências da guerra num antigo soldado...) que acaba na fogueira; que pecado cometem? Querer voar! Uma jovem com poderes adivinhatórios que vê mais do que todos quando está em jejum, e cumpre assim o ritual matinal de degustação do pão, esse alimento indispensável à nossa nação, excepto quando quer ver mais. Esta "bruxa", assim seria considerada naquele tempo, é a única que escapa à fogueira, ou às investidas inquisitórias, ironicamente, mas não se livra de passar os últimos anos da vida numa busca incessante pelo seu amor, o ex-soldado, que acaba por encontrar semi-consumido pelas chamas "purificadoras" do último auto-de-fé a que tivemos o desprazer de assistir, pois todos foram demais. Uma passarola que efectivamente voou, pecado!, e que confundiu todos, poucos, quanto a viram mas que ficou no esquecimento geral menos nos de má mémória, que afinal a têm boa, outra vez ironicamente, os das fogueirinhas, obesos repesentantes da Igreja Católica, tenham vergonha na vossa história.

Um convento majestoso, construído por promessa da sapiência dos fogueirinhas, versão franciscana, aproveitando-se da pouca sapiência do nosso D. João V, nem terá sido o pior dos nossos reis, longe disso, imaginem os outros, eram outros tempos, é verdade, mas sempre houve pessoas e hierarquias, este tinha apetites sexuais por freiras, que hoje também os haverá como sempre houve mas são outras questões, e a sapiência destas raças católicas, digamos assim, aproveitando-se da opulência da nossa corte, pois o Brasil é grande agora e já antes era, fazem com que tudo seja possível, até escravizar o povo para agradar a outro povo, pois nem todo o povo é igual e uns que estão até mais bem alimentados têm mais regalias do que os que passam fome mas trabalham mais, ainda hoje é assim, qual o espanto?!

Um magnífico retrato do Portugal do início do século XVIII, do cheiro nauseabundo, do povo esfarrapado, do clero mal habituado, do reino abastado e da falta de rumo de um rei mal aconselhado. Há ainda espaço para uma história de amor, não menos interessante, de duas personagens "exageradamente" introspectivas para aqueles que os rodeiam, deliciosamente interessantes, com as suas características únicas, Blimunda e Baltasar, na tradução inglesa este amor dá título ao livro "Baltasar and Blimunda", tradução discutível pois é redutor, o livro não retrata uma história de amor, a meu ver, apesar de conter uma, apesar de estarem presentes no "centro" da narrativa, apesar de, pelas suas acções, se contar a história do livro, apesar de ajudarem a construir a máquina voadora, apesar disto tudo. Se Saramago quisesse enfatizar a história de amor, eventualmente teria chamado "Baltasar e Blimunda" à obra, por que não se eles lá estão sempre presentes?, mas não o fez.

A pontuação. Essa discussão interminável. Vou dar aqui a minha opinião, após a minha segunda obra de Saramago. Comecei por ouvir falar do nosso Nobel como "o que não sabe pontuar", "o das frases intermináveis", "o que não se consegue perceber nada porque não põe vírgulas", e tive de ler as suas obras para perceber o quão desajustadas são estas afirmações. Esta pontuação característica, e não diria inexistente pois ela existe, talvez mais parcimoniosa, aceito, imprime velocidade e acção à história. Esta novidade de Saramago deve ser celabrada, e não condenada, pois torna o seu estilo único e inconfundível, saboroso e cativante; deixem-se de dogmas, se não não percam o vosso precioso tempo a ler este livro.


Deixo algumas das citações que mais me marcaram:

“... pairam cheiros diversos na atmosfera pesada, um deles que facilmente identificam, que sem o que a isto cheira não são possíveis milagres como o que desta vez se espera, porque a outra, e tão falada, incorpórea fecundação, foi uma vez sem exemplo, só para que se ficasse a saber que Deus, quando quer, não precisa de homens, embora não possa dispensar-se de mulheres.”

“... pela casca não se conhece o fruto se lhe não tivermos metido o dente.”

“Se Deus é maneta e fez o universo, este homem sem mão pode atar a vela e o arame que hão-de voar.”

“ (...) é extraordinário como se formam um homem e uma mulher, indiferentes, lá dentro do seu ovo, ao mundo de fora, e contudo com este mundo mesmo se virão defrontar, como rei ou soldado, como frade ou assassino, (...) alguma coisa sempre, que tudo nunca pode ser, e nada menos ainda. Porque, enfim, podemos fugir de tudo, não de nós próprios.”

“ (...) a pobre não emprestes, a rico não devas, a frade não prometas (...)”

“Este é o dia de ver, não o de olhar, que esse pouco é o que fazem os que, olhos tendo, são outra qualidade de cegos.”

“ (...) tudo termina num buraco, no caso das formigas lugar de vida, no caso dos homens lugar de morte, como se vê não há diferença nenhuma.”

“ (...) é um defeito comum nos homens, mais facilmente dizerem o que julgam querer ser ouvido por outrem do que cingirem-se à verdade”

“ (...) Lembrai-vos de que quando Pilatos perguntou a Jesus o que era a verdade, nem ele esperou pela resposta, nem o Salvador lha deu, Talvez soubessem ambos que não existe resposta para tal pergunta, Caso em que, sobre esse ponto, estaria Pilatos sendo igual de Jesus”

“ (...) quanto mais se for prolongando a tua vida, melhor verás que o mundo é como uma grande sombra que vai passando para dentro do nosso coração, por isso o mundo se torna vazio e o coração não resiste, oh, minha mãe, que é nascer, Nascer é morrer, Maria Bárbara.”

“Tudo no mundo está dando respostas, o que demora é o tempo das perguntas.”

quinta-feira, 28 de junho de 2012

A maré aqui só sobe uma vez por mês

Mel e abelhas,
flores e jardins,
céu azul e sol,
isto e aquilo,
bla bla bla,
que animação!

Morte e sorte,
juízo e justiça,
chuva e granizo,
orvalho e neve,
bla bla bla,
as coisas são como são!

Pega num pincel,
molha-o em tinta,
não interessa a cor...
E atreve-te,
pinta!
Pinta!
Pinta tudo!
Tu sabes como o fazer,
por que não o fazes?
És tu, só tu,
só tu o podes fazer...

Uma folha de jornal
que me sujou as mãos,
negras, cinzentas, que interessa?
Estão sujas
e chego ao lavatório
e tenho de as lavar
(mas não sei porquê)
e não sei porquê...

Não vou lavar as mãos!
Não as lavo!
Porquê?! Por que hei-de as lavar?!
Não me interessa
que me macule
a roupa já maculada
de um dia igual aos outros
em que fiz o que fiz sempre
e sempre faço até me cansar...

E estou cansado...

Cansado de lavar as mãos.

Cansado do sol.

E do escuro.

Cansado de tudo.

Das pessoas.

E da ausência de pessoas.

E...

Queria cozinhar
mas depois fica um cheiro a caril que ninguém aguenta
e prefiro ir ao chinês
porque é mais barato
e o gelado frito é interessante,
aquele jogo quente/frio, sabes?

Mas nada como um bom frango de caril...

Entretanto estava chuva
e eu nem tinha reparado
e não tinha protecção
e tinha medo das doenças
que daí poderiam resultar,
como a gripe e a gonorreia,
e decidi ficar quieto,
num canto, à espera,
abrigado, que tudo passasse
mas não passou
senão após vários dias de espera,
longa espera,
desesperante,
cáustica, desidratante,
e queria apenas um mojito
mas eis que acaba o rum,
e eu penso
"como é possível?!".

Mel, gosto de mel,
gosto do teu mel,
é diferente dos outros,
é mais suave, enfim,
mais...

Falta-me a palavra...
Frequentemente falta-me uma palavra,
aqui e ali,
e...

terça-feira, 26 de junho de 2012

Discorrendo sobre a realidade

Discorrendo sobre a realidade
fica sempre um certo sabor a amargo,
não obstante provando, sem embargo
de saber se é mentira ou se é verdade.

Queria distinguir amor de amizade;
queria saber para cada o meu cargo
mas como?, cada sentido é tão largo
quando, entre dois, falta unanimidade...

É tão verdade que a dúvida mata
como me é tão fatal a mentira;
ai confiança, por que és tão ingrata?

Como vou saber qual destes prefira?
O fim é uno à definição lata:
volúvel como o vento quando vira...

Tu nunca percebes o meu humor

Tu nunca percebes o meu humor,
é incrível... E tenho muita pena
porque a tua alma não é pequena
e as palavras tornam-se um rumor...

Poderia ser tanto mas é só temor
da falta de compreensão: serena!
Tanto stresse junto e bem vista a cena
o filme é todo sobre desamor...

E receio ainda que se propague
a doença pelo tecido afectado:
que gangrene, se ampute, se apague...

Vendo-me do meu humor amputado
como queres que a bomba não se ressinta?!
Já me chega saber que há quem me minta...

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Eu permaneço em insanidade, coberto pela terra, à espera da decomposição que já se processava mas, enfim, não vos quero tirar o prazer de dizerem que começou agora, agora que me fizeram o funeral.

Um dia interessante,
desafiante,
como nenhum que o antecedeu!
Finalmente, o meu corpo cedeu!

Caí num buraco,
sentia-me fraco,
não conseguia sair e estagnei
como aqueles sobre os quais me enganei
(que terão direito a muitos poemas no futuro).

Larvas, de insecto,
mantenho-me quieto,
devorado por seres rastejantes
que sempre estiveram lá, duros, inquietantes.

Insectos, que voando,
vão-me incomodando, ou amando,
conforme a perspectiva, com a sua fúria belicosa,
tratam-me por dentro até a matéria ser toda ela viscosa,
própria dos momentos em que avança a decomposição,
própria de alguém que perdeu a sua própria razão.

O cheiro, nauseabundo,
se o sentissem por um só segundo
iriam inundar-se de lágrimas até à regurgitação
mas os meus amigos alados fazem disso a sua nutrição
e gostam muito dos meus conteúdos estomacais,
via oral, via fetal, via uretral, uma qualquer mesmo acessos fecais.

O calor, insuportável,
absurdo, desagradável
ao ponto de fermentar vivo o leite que me incorpora
e lentamente a água que me constitui se evapora
e chove no buraco onde vim parar, absolvido,
pois os meus juízes já se tinham decidido!

Há quem diga que fui devotado à violência
apenas por me terem consagrado à ausência
da nossa sociedade, igualmente carnívora, por uns momentos
em que, condoídos, se lembraram destes tormentos,
chamemos-lhe assim, poderiam ser os seus
e então ficaram com medo e rezaram a um deus,
um qualquer, que a fé é movida pelo interesse,
à semelhança da nossa sociedade que me aborrece
pela sua, digamos, ilusão, por outras palavras: fantasia!,
que é fazer da verdade crua e dura uma bela hipocrisia!

Morri!

Mas não acabou aqui a minha viagem!
Pois em mim germina a semente!
Vou para a cova mas não vou sozinho,
levo em mim lembranças de cada vizinho,
ovinhos recheados de uma geração de seres desprezados,
alguns dos quais injustamente devido à sua importância,
insectos que colocaram em mim os seus ovos recheados
e que se perpetuarão no tempo com a devida distância,
seja esta física ou temporal, seja isto o mesmo, quem quer saber?
Lambam-me as feridas que o pus parou e ninguém o quer beber,
que interessa agora que estou tão infectado? Sinto-me realizado
pois fui o escolhido e sou o padrinho de toda um buraco abafado
que tem uma lápide de mármore, bela e bem cinzelada,
e diz coisas bonitas que agora me interessam nada,
agora que, jazendo, tenho um fim maior do que o meu fim, um meio
de dar vida àqueles em que agora mais verdadeiramente creio:
os insectos! Despojados de sentimentos e algo satânicos,
eficazes, rastejantes, voadores, penetrantes, mecânicos,
como tudo deveria ser neste buraco, chamemos-lhe sociedade,
onde eu morri sem poder ter dito a verdade,
onde eu morri para dar corpo aos que me sucederão nos ares,
onde esvoaçarão para espalheram o caos até outros lugares,
lugares igualmente putrefactos.

Até lá...

Até lá nada de novo.
Até lá tudo igual.
Até lá...

Não te esqueças de me enviar
as fotos daquele dia especial...

Até lá nada de novo,
sempre o mesmo...

Não te esqueças de me ajudar
a conquistar um lugar especial...

Até lá eu simplesmente não existo
mas não devia estar já habituado!?

Não me ignores mais! Estou farta!
Sim, se for assim está muito bem!

Até lá... Não tenho nada a fazer
que não tenha já feito, que novidade!

Não me toques, não dessa maneira,
que me agrides com o teu jeito.

E até lá...

Estou a ver...

Olha!
Olha!
Olha!
Olha!
Olha!
Ali!
Lá!
Além!
Olha, de novo!
Olha, outra vez!
Olha, novamente!

Vi!
Vi!
Vi!
E não vejo mais...

Olha, de novo!
Olha bem, com atenção!

Estou a ver...

sexta-feira, 15 de junho de 2012

The place we came from is the place we are going to

We all must live day by day until we die and then we are killed by the boredom we are trapped in, under ice, over dust, you must know what is the best for you until we cry and then we are going to the grave and we can't behave the same way we used to do because it's so not cool when you prefer to lie and wai until the worms come and eat the flesh, slowly, till the bone, and suck the marrow, like and arrow pointed to the heart of lovers until they find how much can love betray and until the day they are reborn and then all the happiness is so fake because they know their fate, just miss the rate they will be decomposed, feeding others, until the soul is also food and fuck man, this is a waste of time... Pain! In the back! Until you come back to the place you were born, the hole, the whole, the womb, the tomb, the dark, the unknown, the place, the place, the place we came from...

Então foi assim...

Quero muito mais mas não sei se devo,
está na ponta da língua mas não se diga,
como é que consigo mascarar o enlevo?
Afinal não tenho mais olhos que barriga.

Diz-me, sem rodeios, o que pensas,
agora que sabes o que eu penso,
a curiosidade com que me adensas
não é menor do que à que pertenço,
não sabes o mal que me tens causado
por desconhecer a tua resposta,
ninguém acredita que tenha acabado
quando se sabe bem do que se gosta.

Queria mais mas sei que não devia,
estava na ponta da língua mas não disse,
como consegui esconder o que havia?
Afinal não comeria se não o visse.

Diz-me, sem rodeios, o que havias pensado,
agora que sabes o que eu pensei,
a curiosidade com que tenho ficado
deve-se àquilo que acho que sei,
não sabes o bem que me foste causando
por ter a certeza dos meus receios,
agora respondo-te que vou andando
pois os fins justificaram os meios.

Quereria mas não calhou e agora?!
Agora...

Enquanto uns preferem milho outros preferem umas folhas de alface mas duvido que estejam bem alimentados.

Vejo as fotos e estás lá e não vejo a razão para não estares cá; como é possível não estares mais no sítio que reservei para ti à custa de tudo o resto que tinha para mim e hipotequei para levar-te ao céu que recusaste pois nesse outro planeta que aluguei para nós ao custo de reis e rainhas e outros favores continua inabitado e disponível e a degradar-se profundamente e custa a ver e não quero perceber sequer o que se passou...

Os meus sapatos novos

Olho para trás e sou capaz de ter sido o melhor rapaz que pisou este jardim e mesmo assim as flores são de várias cores e não me parecem senão cinzentas... Não sei como aguentas esta novidade, já não temos idade para isto e não descalçamos este sapato... Foi lebre por gato quando eu queria felinos e uns maus meninos deram-me estes sapatos que não foram baratos. É incrível como é irresistível quando eles estão em exposição e ficas sem reacção perante tal oportunidade! Só depois reparas que a novidade vai apertar-te os pés e deixas de ser como és até estarem acomodados nos teus pés magoados que sofrem pela moda e ai como incomoda, pelo menos ao princípio... Ao pé do precipício é que reparas que quando páras te magoam no tornozelo, apesar do teu zelo, de os tratares como se fossem ímpares, como se fossem mais importante do que tu. Por mim podes metê-los na caixa mais um pouco enquanto continuo louco, talvez de saudade, pelos meus velhos sapatos confortáveis, que eu achava detestáveis, mas que me foram tão fieis e amigos...

Agradecimento ao fim dos dias antes que seja impossível.

Dizem que um dia não são dias,
e uma noite não é um dia,
esta vida é um vê se te avias
mas outra vida aqui não havia,
e foi o dia e a noite veio
com a sua bruma e encanto
e um dia passou e nele creio
pois que virá outro dia entretanto
e este que passou foi irrepetível
e no entanto quero que se repita
esta dança dos dias a que sou sensível,
este ciclo, esta obra-prima infinita
até ao dia em que, na solidão,
o Mundo se veja despojado de povo
e os dias não serão os que nos dão
pois que ninguém verá nada de novo
e nesse dia, chamemos-lhe assim,
nem sequer teremos o pequeno conforto
de saber que o Mundo chegou ao fim
pois que nele tudo estará morto.

E essa novidade será linda e imaculada
pois não poderá ser sequer noticiada
pois não poderá ser sequer reflectida
pois que não mais entre nós haverá vida
e nesse Mundo novo sem haver viva alma
abundará a paz, a cordialidade e a calma
e o Mundo respirará finalmente de alívio
e a nossa sociedade só não cairá no oblívio
pois que ninguém haverá para a esquecer,
pois que ninguém poderá morrer ou nascer,
pois que tudo terá, enfim, um novo ritmar,
um sol soalheiro a pôr-se impoluto sobre o mar,
uma nuvem que chove chuva isenta de fatalidade,
o fim do manicaísmo, da mentira e da verdade,
da tristeza e da felicidade pois ninguém mais sente!
E eu que previ isto tudo fico, por o saber, contente!

É isso e nada mais!

Não detestas isto? Este silêncio... esta calma. Vejo no teu olhar que detestas, não me tentes enganar. Estás a enganar-me? Não o tentes sequer. Não me consegues enganar portanto nem vale a pena tentares. Pára, já disse!

Há dias vi um miúdo a pedir dinheiro na rua. Estava a chover. Ele estava de sandálias, com os pés molhados e eu disse que lhe daria uma moeda depois de ir jogar no Euromilhões. Que podia fazer, tinha uma nota, não lhe ia dar uma nota! Joguei 2 euros, recebi 8 de troco, uma nota de 5, uma moeda de 2 e uma moeda de 1 euro que lhe dei após talvez uns 3 minutos. E ele esteve na rua uns três minutos com os pés molhados à espera de 1 euro. Podia ter-lhe dado a nota mas se me sair o Euromilhões vou ajudar muitos miúdos porque agora não posso fazê-lo. Poderia até mas nunca se sabe o futuro, também tenho de acautelar o meu futuro. Dei-lhe um euro, é bastante! São 200 escudos na moeda antiga! Com 200 escudos comprava-se muitos mais do que agora se compra com 1 euro, é verdade, mas não deixa de ser 1 euro. Eu tive de trabalhar para ter aquele euro, não percebo por que me censuras! Se o miúdo não tem culpa eu muito menos ou achas que ando a promover a pobreza?! Eu sei lá se era pobre, era um miúdo magro com sandálias velhas a pedir dinheiro num dia de chuva; é garantia de que é pobre? De que necessita de dinheiro? Não! Pode ser pobre, pode não ser... Espero que seja pobre porque assim pode fazer bom uso do dinheiro. Espero... E se não fosse pobre para que precisaria de pedir dinheiro?! Se não lhe devia ter dado de comer? E os pais? Cala-te, aborreces-me com tanta censura! Queres lá ver que agora sou a Madre Teresa de Calcutá? Se não estás contente dedica-te ao missionarismo, deixa-me viver a minha vida como quero!

Pediram-me para lhes pintar uns quadros. Eu vi logo que iam abusar. Uma pessoa não pode dizer nada, não se pode dar um mínimo a saber, que querem logo algo de nós. Se eu dissesse que sabia cozinhar pediam-me que cozinhasse. Se eu dissesse que sabia isto e aquilo pediam isto e aquilo: não pode ser! E para mais, vê lá a lata, nem sequer falaram em dinheiro! Só me pediram para pintar um quadro. Se me pagavam o que lhes pedisse?! Nunca vou saber, disse logo que não. Tenho mais o que fazer. Querem quadros pintem-nos! Comprem-nos! Quero lá saber! Uma questão de valorização da minha pessoa?! Ah ah ah, deixa-me rir. Querem é aproveitar-se de mim! Que ingenuidade a tua. Eu nem sei por que continuo a falar contigo. E pára de olhar para mim dessa maneira. Sim, dessa maneira; estás a olhar?! Olha para outro lado. Baixa os olhos quando te falo, respeita-me!

Então estava eu a sair do cinema e vem um tipo qualquer ter comigo e pergunta-me pelo meu irmão. Eu nunca o tinha visto mais gordo e disse-lhe que o meu irmão tinha morrido há um mês! Ah ah ah! E nem desconfiou, nem perguntou nada, apressou-se a apresentar-me os seus sentimentos e a falar muito bem do meu "irmão". Que cromo. Eu vi que estava mesmo a sentir o que dizia mas eu continuei a minha performance! Que lata, confundir-me com alguém! E estás a dizer-me que não o devia ter feito?! Então vou eu na minha vida e um sujeito desconhecido aborda-me a perguntar pelo meu irmão. E eu inventei logo que tinha morrido, para ver se me deixava em paz, mas não, que azar!, teve o efeito contrário! Sem dúvida, devia ter dito toda a verdade, tens toda a razão, para ver se aquele cromo me desamparava a loja mais rapidamente. Tu és doente, é o que é, então agora a culpa é minha que as pessoas vejam mal!? Sim, devia ver mal, eu sei lá quem era o tipo! Não interessa, lá continuou a falar sobre a pessoa fantástica que é o meu irmão que tinha acabado de saber que existe, e eu já a fartar-me daquilo, e eu, com a minha simpatia, vê lá que ainda tive essa consideração, disse-lhe simplesmente que o meu irmão me tinha dito que o detestava e que escusava de estar com aquelas hipocrisias! Mudou logo a fronha! Parece que ficou chateado e desapareceu logo! Assunto encerrado! Um dia ainda me corre mal? Como assim? Então mas estás contra mim ou quê? Levava logo dois socos no focinho se me tentasse tocar! Compre uns óculos ou que deixe de beber. Que me deixe é a mim em paz. Irmão agora...

Contei ao sócio do meu primo umas verdades sobre o meu primo porque só não as vê quem não quer. Olha, ficou chateado! Achas isto normal!? Então ainda estava a avisá-lo para ter cuidado e fica contra mim?! Eu tenho uma sorte... Que se matem um ao outro, eu lá estarei no funeral a assobiar para o lado para tentar não me rir! Acabava-se já o problema. Eu sou radical? Radical é ele! Devia ouvir e calar! E tu cala-te, estás sempre contra mim! Cala-te, já disse! Cala-te!

Rush in the rain

Please shut up!
...

God said so,
be the one that I'll never know.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Estava com vontade de rezar um tercinho mas vi um livro aberto que por acaso nem era a bíblia e deu-me para as ironias mas eu sei que isto passa pois é demasiado mau para ser verdade e acredito num Mundo melhor, ou algo assim parecido...

A reviver a decadência,
num canto do jornal
onde as notícias são sempre iguais,
tão iguais que nada se aprende,
só se desaprende...

Ali onde o lápis é negro
mas podia ser azul como outrora
porque, por agora,
a cor não interessa,
nem o conteúdo, só a forma,
de forma a termos um formato
sempre igual e que se repete
com ligeiras variações que entretêm os mais distraídos....

Algures alguém pensa por nós,
alguém supostamente, suponho, iluminado,
pela luz da Lua e das estrelas
agora que o bom tempo voltou
e o céu estrelado governa os céus
onde um dia ascenderemos e nos sentaremos
ao pé do pai
e tudo será bom, amen!

Na cruz, quieto,
é onde estás bem,
de modo a que se apoderem de ti.
Chorem todos que a dor
fica contigo
e não passa de um momento.
O amanhã é melhor,
não faças por mudar já hoje
pois pode ser pecado e queres o céu!

Cumpre, as ordens,
cala a boca e atenta
na palavra dos designados
para te ajudar
nesta demanda,
não vale pensar
quando não és tu quem manda
neste reino de aqui-dor,
ouve as ordens do teu senhor,
não saias do caminho para te portar mal,
vives num tempo como o feudal,
como o ante-cristo, como o medieval,
beija-os na boca,
lava-lhes os pés,
tem medo dos trovões
e condena o pensamento
pois tu não sabes pensar,
não tens de te cansar,
olha o Sol lá fora, como brilha para ti,
que queres mais do que bom tempo?!

Na cruz és um mártir
prestes a ser beatificado
enquanto o futuro é hipotecado
em nome da salvação
de quem?
De quem?!

Novidades embrulhadas em papel machê

E no fim do caminho encontras uma pedra!
E chuta-la para longe.
E a pedra vai para longe mas o pé fica magoado.
Assim sabes que devias ter ficado quieto.
Ou não?

sexta-feira, 1 de junho de 2012

I wish I was Lucky

I wish I was Lucky
I wish I was licky
"and now I wanna be your dog"
it would be living high on the hog

If I was afraid of the thunder
You know I'd like to stay under,
under your belly, next to your chest,
I wish I was there just to have a rest...

I wish I was Lucky again
I wish I was a better dog or man
I wish I was out of the rain
I wish I was under you and out of pain

"and now I wanna be your dog"
"and now I wanna be your dog"

I wish I was Lucky
I wish you were licky
be my mother, I'll be your child,
it would be so funny to become wild

You know that some dogs bark
maybe they're afraid of the dark,
I would behave since you could take care
of my other fears, my every night nightmare...

I wish I was Lucky again
I wish I was a better dog or a man
I wish I was out of the street
I wish I was under you and it would fit

"and now I wanna be your dog"
"and now I wanna be your dog"

So hear me barking in this king-size bed
I feel king size and I no longer feel bad
Help me I'm hungry and the fear of anything
Keep us licking each other lighted by lightning

I wish I was Lucky enough to fear the storm...



Pulverulento como o que não bebo nem como

Fogos, a arder,
vais ver
e cheirar
o cheiro
a carne assada...
Dói!
E ninguém quer saber...

Árvores, a cair,
vais ver
e sentir
a sensação
de morte vegetal...
Dói!
E ninguém vai ouvir...

Lixo, à porta, do quarto,
onde me deito,
ocasionalmente,
onde durmo,
raramente,
e onde me esqueço
de esvaziar,
devagar,
a caixa de areia
do meu gato...

Coitado, não sei cuidar dele...
Como posso eu cuidar de mim?
Não sei cuidar dele,
como posso cuidar de mim?
Nem sei cuidar de mim,
como posso cuidar dele?

Esqueci-me de comer
os restos que havera guardado
no frigorífico
que está ferrugento
e cheio de podridão:
o que fazer com a comida que me dão?
Eu não gosto de tudo.
Eu não gosto de tudo.
Eu não gosto de tudo.
Nem tenho fome...

A garrafa está a olhar para mim,
a garrafa olha por mim,
a garrafa não está bem assim,
vou ter de a abrir e despejar
o conteúdo da minha mente
num copo alto em balão.

É branco, mas não é leite,
é espesso, mas não é isso,
é pulverulento...
Pulverulento...
Pulverulento...

Não sei o que dizer mas tento...

"Eu tenho um país que é um cancro" - Lisete Ornelas

"Eu tenho um país que é um cancro.
Eu tenho um país que é um cancro.
Eu tenho um país que é um cancro.
Eu tenho um país que nem cuidados paliativos me dá.
Eu tenho um país que me cobra impostos
Eu tenho um país que me cobra impostos
E em troca nada me dá
Eu tenho um país que me impõe regras
Eu tenho um país que me impõe regras
E que de bom nada me dá
Eu tenho um país que me diz oferecer boa sáude, educação e justiça pública e gratuitas
Eu tenho um país que me diz oferecer boa saúde, educação e justiça pública e gratuitas
Mas quando lá vou vejo que não
Eu tenho um país que é um cancro
Eu tenho um país que é um cancro
Eu tenho um país que fala em democracia, igualdade e liberdade
Eu tenho um país que me fala em democracia, igualdade e liberdade
E quando olho à volta
E quando olho à volta
Tenho um país que me prende, rouba e maltrata
Prende, rouba e maltrata
Eu tenho um país que é um cancro
Eu tenho um país que é um cancro
Eu tenho um país...
Eu tenho um...
Eu tenho...
Eu...
..."

Lisete Ornelas