segunda-feira, 30 de abril de 2012

o caminho das cruzes à conversa com os que não lhe são indiferentes


Luz, luz, luzes e mais luzes
e no meio da poeira há espaço
para acenar com umas quantas cruzes
e não sei por que me maço
por pensar que ainda há um ou outro cristo
que as poderá, um dia, habitar
e nem sei por que ainda existo
e por que quero conquistar
os Montes Gólgota que vejo
aqui e ali e em todo o lado
se, porventura, não é desejo
do que a cruz carrega ser ajudado...

Mas há algo maior que me impele
para salvar os que oprimidos
tentam salvar a sua própria pele
e a dos que serão também vencidos
sem terem sequer vontade de lutar
e não compreendo, não consigo,
não quero ver, não quero escutar,
os argumentos que dão ao inimigo
para justificar o injustificável,
o que é apenas mais uma conversa
para mim absurda e inefável
a uma alma que no silêncio se dispersa...

Silenciando o silêncio silencioso
sigo seguindo o que não seguirei
ora aventureiro, ora receoso,
ora até ao infinito, ora até onde irei,
e tenho a certeza, se me é permitido,
de que este dia, na sua essência,
é tão curto e vil é tão comprido
como aqueles na sua adjacência
e como tudo me parece sempre cíclico,
igual, já visto, nefasto, aborrecido,
usado, gasto, redundante, encíclico,
enfim, tudo é, agora, como tem sido...

memórias na água a correr

Sol, que estás a brilhar, vai chegar
o dia em que te escondem as nuvens
e então, sem reparar, devagar,
esquecerei que no dia seguinte vens
como sempre tens vindo e virás
pois há memórias que não sou capaz
de me recordar eternamente
pois que vivo entre a gente...

Mar, que estás a brilhar, vai molhar
outro dia em que não esteja vento
e então, sem reparar, se calhar,
esquecerei este mau momento
como sempre me tenho esquecido
pois destas memórias não sou capaz,
não quero recordar o já vivido
e ter assim um momento de paz...

E vem uma onda que me cobre por instantes,
em que fecho os olhos e nada é como dantes
em que fechava os olhos e nada mudava
em ondas revoltadas em que me afogava
em remoinhos distantes em que me escondia
em caminhos extenuantes sem a luz do dia
e a água passa e ao sol vou já secando
e abro os olhos mas não sei até quando...

Luz, que me fortalece, já parece
que voltaste para, enfim, ficar
mas penso "quiçá ninguém merece
livrar-se da água e ao sol secar"
quando na água estão as nossas raízes
quando ao sol a nossa pele se enruga
quando ao vento ouço o que me dizes
e das memórias ninguém se enxuga...

Ar, que me oxida, já me envelhece
por dentro ter tanto em que pensar
um rosto nem sempre é o que parece
e sorrio com vontade de descansar,
eu respiro mal pois levas-me a alma
no quinto de oxigénio que me mata
mesmo que a face permaneça calma
a memória persiste sempre ingrata...

E vem uma onda que para sempre me reclama,
que me protege do sol e da sua chama
que me fecha os olhos e me dá descanso
que me faz esquecer o mar onde me lanço
que me autoriza a nada querer, nada perceber
que me permite nem ser, nem parecer, nem saber
e a água passa e ao sol vou já secando
não abro os olhos e para sempre é o meu quando...

E deixo memórias na água a correr...

domingo, 15 de abril de 2012

Apesar de me ter curado

E na verdade tudo começa sem um fim,
pois que o fim decorre do princípio
e nunca se sabe se será mesmo assim
ou se pelo caminho há um precipício
que leva, enfim, ao fundo... Sei lá!

Sei lá, sei lá! Sei... não sei... Será?
Será que isso é apenas... grrr... perspectiva?
Uma doença, não, um síndrome que irá
retumbar na longa queda numa recidiva!

E dói imenso! E ainda nem se deu a queda
e já quedo arranhado e com hematomas
e antes de se consumarem os sintomas
é utópica a esperança que se quer leda.

Amanhece e o novo dia é soalheiro
ao contrário de mim, sorumbático,
pois desabou de mim o ser prático
e o sentimento é mais verdadeiro
apesar de me ter curado muito me custou...

sábado, 14 de abril de 2012

Inverno Primavera

Nuvens negras, a voar,
o que posso fazer para vos alcançar?
Chuva grossa, continuada,
por mais que tente molha-me nada...

Então chove! Chove! Chove! Mais!
Chove no molhado
que mesmo assim não chega,
chove mais um bocado
e mesmo assim não chega,
continua a cair e sem sucesso
porque não molhas tanto quanto peço...

Vento forte, clandestino,
como posso chegar ao teu destino?
Ar húmido, frio e arrepiante,
por mais que tente estás tão distante...

Então sopra! Sopra! Sopra! Mais!
Sopra no meu corpo gelado
que mesmo assim ainda não chega,
sopra mais forte e mais direccionado
e mesmo assim sabes que nunca chega,
continua a soprar, e como te adoro,
mas não é suficiente o quanto te imploro...

De que estavas à espera?
Sabes que chegou a Primavera.

Sabes que há algo eterno,
a sensação gelada do Inverno.

Sabes, ou não, que tudo não passa duma estação,
que tudo não passa de um momento que se repetirá;
sabes que isto sempre acontece e acontecerá em sucessão,
saberás o quanto a chuva molha?! E o vento para onde irá?!

terça-feira, 10 de abril de 2012

O amor salva!

A alma é alva,
a vida é boa,
o tempo voa,
o amor salva!

quarta-feira, 21 de março de 2012

FELIZ DIA DA POESIA! :)

Deixo-vos com um dos meus poemas favoritos...

Os versos que te fiz

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.
...
Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

Florbela Espanca

quinta-feira, 15 de março de 2012

Os olhos no céu, as janelas abertas

Os olhos no céu, as janelas abertas,
os aviões passam e a vida avança,
reveste-se o fim duma fina esperança,
ouve-se de alguém as palavras certas...

Mentes dispersas, ideias desertas,
tão certas quanto as de uma criança,
inocentes e absurdas; ninguém descansa
quando, por amor, do amor não despertas...

Sente-se na voz e naquilo que mentes
como funciona o coração realmente,
contrário à lógica a nós ensinada;

não mais te ouvirei, por mais que tu tentes,
um dia serei outro ser mais contente
se bem que pareça que parto do nada...

segunda-feira, 12 de março de 2012

CONSULTÓRIO SENTIMENTAL

Brevemente neste blogue!

terça-feira, 6 de março de 2012

Só um momento

Só, num momento de paz,
vejo em ti uma ilusão,
olho de novo e satisfaz
só de saber que não há razão
para me iludir de novo por nada...

Só, num momento de luz,
vejo sobre ti uma emoção
que supostamente não me seduz
porque sei como as coisas são
e o recomeço é uma coisa complicada...

Só, num momento que não sabes,
vês em mim o olhar da paixão,
ocupas um lugar onde não cabes
e retribuo o olhar para o chão
que ambos pisamos de perna cruzada...

Só, num momento estranho,
vês o que não quero que se veja,
a estrada é longa como o tamanho
do sentimento que toda a gente inveja
e entreolhamo-nos de forma depreocupada...

Apenas.

Queria escrever, apenas...
Apenas queria escrever.
Tenho dito...
Bem, mas queria escrever
e não sabia bem o quê.
Então alguém me disse:
"Escreve apenas!"
E eu escrevi!
E fui mesmo bem comportado
e não me senti nada mal
pois, enfim, já está escrito!
E continuo a querer escrever
e sem saber o quê!
Mas mesmo para quem não sabe
ainda não parei,
o que é deveras interessante,
esta capacidade, vá, de escrever sem tema!
"Quem disse que tudo o que escrevemos tem de ter um sentido?" -
e tens toda a razão!
E agora estou a lembrar-me de garrafas!
Garrafas vazias! Vazias, com ar, vá!
Garrafas transparentes, ligeiramente esverdeadas.
Não, ligeiramente azuladas!
Não, também não... Incolores!
E nessas garrafas vazias de líquido havia ar!
Ar! E nada mais mas chega. E o ar é leve!
Leve! E as garrafas elevam-se no ar!
E são misturadas com as nuvens
e um dia choverão garrafas cheias de ar!
Suavemente cairão e será bonito!
Mas que estou para aqui a escrever?!
Não sei mesmo...
Será que alguém lê isto?
Ritinha, ao menos tu!
Só de ti espero algo! Vê lá!
Vê lá ao nível a que isto chegou!
Escrever para ti, sobre ti, sobre ti,
sobre ti como sobre uma folha, quis dizer,
uma folha que se reutiliza vezes e vezes sem conta!
E quando a tinta já é tanta que o fundo não se vê...
Muda-se de cor!
E então pode-se escrever mais!
Eu aproveito e desenho também.
Já desenhei melhor mas ainda se percebe
que tentei desenhar o meu estado de espírito;
percebe-se, não se percebe?!
Acho particularmente claro desta vez...
Está lindo! Poético!
Gosto, nomeadamente, daquele risco oblíquo,
bastante revelador...
Enfim, já nem sei desenhar,
só sei escrever...
Só sei...
Sei...
Sim...
Sim, sei!
Não sei se sei...
Sei lá se sei...
Quem quer saber?
Escrevo, apenas.
Percebes?
Até tu perdes o sentido?
Pois, como eu.
Não tenho mais a dizer...

Detesto isto!

Não, não detesto.
É viciante, é isso...
Que perda de tempo...

quinta-feira, 1 de março de 2012

Florbela Espanca vive numa Charneca em Flor e escreve-me um Livro de Mágoas...

Anda-me dar muitos abraços.
Quero sentir o teu corpo quente junto ao meu.
Não faças o meu coração em pedaços,
não sou a Julieta, não te quero para Romeu,
esses morreram cedo mas tu vives e és meu!
Meu! E só podes ser meu! Porque eu quero!
E sabes que, acredita em mim, não exagero
quando digo que és tudo para mim,
sim, és tudo para mim, meu querubim,
minhas asas de anjo, meu toque de seda,
não há maior desejo que me conceda
qualquer génio da lâmpada das arábias
do que as tuas lições tão sábias!
Oh meu professor! Meu mestre de tantas horas,
se soubesses como contigo as demoras
são o meu tempo predilecto! Oh e a vontade,
a vontade que se faz prazer de ansiedade,
na esperança que o tempo não mais passe
e que mais o meu amor, minha perdição, me abrace!
Abro a cama à tua agradável presença,
fecho os olhos e ouço a tua sentença,
castiga-me a teu belo prazer pois mereço
tudo o que tu me fazes com tanto apreço
e desapareço do mundo para viver contigo
e só a ti admito esse teu severo castigo
que me soa a liberdade e me soa a paraíso,
que me traz a felicidade, o prazer e o riso,
que me escancara as portas para a redenção:
captar mais um minuto da tua boa atenção!
E como eu sonho mais e mais e sonho a cores,
como é tão bom suportar estas fortes dores
que só tu me infliges, como vetusta tradição,
que sigo sem pensar como louca perdição
e me desgraço, oh sim, desgraço-me... por ti...
Porque não és meu e até isso sempre te consenti...

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Algures a olhar para o mar e a pensar que vida era aquela...

E estava frio... Mesmo abraçados, estava frio que chegue para estarmos a tremer! E tremíamos...

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O angelicalm não tem resultado mas quiçá batatas ajudem!

E a frustração continua?
Oh... mas agora vais para a rua
libertar-te dessas amarras,
dessa almofada a que te agarras
na vã esperança da meditação,
deviam ser oito horas e nem metade são,
e eu que nem queria dormir invejo
o teu sono pouco mas bem vejo
que para ti tem um grande custo
e novamente acho o mundo injusto...

Valeriana

No teatro da vida estou bem-disposto
e é novamente a verdade que se adia,
deixa a máscara, eu conheço o teu rosto;
o carnaval passou e foi só um dia.

De ti não espero nem um abraço,
pois sei que não gostas de mangas,
e temo-nos dado tanto espaço
que assim não há azo a zangas!

Há ideias que só tu percebes,
pois o coração não é gelado
como aquele chá que não bebes;
frio é um espírito destroçado.

Há noites que passas em claro
mas sabes que não te abandono,
o teu raciocínio é-me tão caro
quanto o teu problema de sono.

E não entendo o teu desleixo
pois não tens formação em falta
e como vês não é assim que deixo
de te falar da tensão alta...

Há uma aldeia que é uma fantasia
e só tu sabes como a alcançar,
por esse rio acima, indo da maresia
até um sítio onde se possa descansar...

E até lá será só o destino
quem nos continua a juntar,
em cada chávena de cappuccino
é contigo que quero estar...

Há lodo, junto ao cais

Há lodo, junto ao cais,
no nosso local de embarque,
temos de ter cuidado...
O lodo escorregadio,
por onde temos de passar,
é algo que nos atrasa...
E então vamos devagar.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

A ver o mar com outros olhos

Olhei para o mar e pareceu-me igual a ontem,
igual ao que sempre vi nele e que sempre adorei,
há histórias que nunca espero que me contem
porque fui o actor principal e nunca as escreverei!
Muito simplesmente porque já as vivi e as protagonizei!

A lua incidia com fúria sobre o mar adormecido
mas este não queria acordar do seu sonho eterno,
estavas ao meu lado e apesar de nada ter ouvido
tudo o que disseste foi invulgarmente belo e terno
e nesta história soou ao incontornável amor materno!

Os barcos iluminados passeavam a milhas da costa
como caravanas de luzes que se estendem no infinito,
mesmo quando se passa algum tempo com quem se gosta
a sensação de vazio é tanta que nem em outrém acredito
mesmo que me convença que estou a viver um filme bonito!

O farol luzia com uma monótona intermitência,
como qualquer farol que até ora me tem alumiado,
se não há um fio condutor há que ter paciência
pois por mais que demore acabarei bem iluminado!
Nem que seja só por um instante, alguém verá o meu lado!

Nem eu sei mas gostava de saber e se alguém souber então saberei que o sabe mas não espere que eu saiba como o soube

Sim, e estava na praia, e pensativo...
"Como é possível?!"!
E não tenho uma resposta para dar...
Sabes que também não me interessa
responder a tudo
mas agrada-me o trabalho de questionar.
Agrada-me imenso! E não há respostas.
Nunca há e achas que isso me importa?!
De todo! Já aprendi a não as ter,
já aprendi a não esperar por elas
portanto limito-me a colocar as questões
e se alguém quiser responder,
ou muito simplesmente tentar,
já me faz um pouco mais feliz!

Conheço uma pessoa mais fantástica do que o resto,
porque partilha o mesmo bom gosto,
aqueles que dizem que não presto
como pessoa por ser... como sou!
E então que faço quanto a isso?
Nada! Apenas... gosto de indagar
os gostos em comum, e são bastantes,
e no final achamos que é engraçado.
Apenas engraçado. Curioso, talvez.
Interessante, no mínimo,
estimulante, suponho,
cativante, quiçá,
motivante, até certo ponto,
apaixonante, se quisermos,
e doravante vai ser sempre assim:
cada passo dado vai ser questionado
"foi este mais um que gostavas de ter dado?!".

Então, a certa altura, olhei para o lado,
atentei nos olhos, gosto disso,
de olhar para os olhos de alguém,
e já não me lembro do que disse...
Gostei dos olhos, da profundidade;
quando olho alguém nos olhos, fixamente,
demoradamente, com vontade de observar,
vejo a pessoa nua, frágil, aberta
pois que me parece que consigo penetrá-la,
ainda que apenas com os olhos,
mas descubro imenso sem me mexer
e assim continuo o meu desporto
da constante análise do Mundo.

Estava calor nesse dia, bastante,
e não havia água por ali. E que sede!
Então fomos andando, à procura,
numa esperança de saciedade,
uma motivação como outra qualquer,
outra qualquer fisiológica, entenda-se,
e devemos ter andado vários quilómetros,
sem rumo mas com vontade e, desta vez,
a vontade não chegou porque parámos,
junto a um poste, muito alto e magro,
que nem sequer nos providenciou sombra,
e aí apercebemo-nos de que estávamos perdidos!
Completamente perdidos! Num deserto!
Um deserto de ideias, claro, como neve,
um deserto vazio, completamente vazio,
tão extenso que a vista se perde nele,
e nesse momento sentimos medo, muito medo,
medo de não sairmos de lá nesse dia...
Só que entretanto tivemos uma ideia!

Num futuro próximo, contudo,
talvez daqui a uns cem, duzentos dias,
mais coisa menos coisa, por aí,
o Mundo vai mudar e com este o meu mundo
e então verão como será boa a mudança!
Porque, actualmente, fala-se de crise,
de apócalipse, armagedeão, o que quiserem
mas eu sinto que a mudança está próxima
e será bem melhor do que o esperado!

O céu num dia de Fevereiro

Olhei para o cé e estava tão belo,
cor-de-rosa, de laranja e amarelo,
melhor ainda do que o teria pintado
e nesse momento fiquei agradado
com o trabalho que vi na Natureza!
E tenho esta fé, esta quase certeza,
que tudo o que vejo no céu, no mar,
é aquela beleza feliz, é até amar!
Nunca lá vi nem um pequeno engano
nem a desonestidade de um ser humano
nem a mentira hipócrita dissimulada
nem a malícia a sorrir de uma boca calada...
Só vi prazer sobre a forma de paz
só vi o bem-estar que tanto me apraz
um ciclo que se fecha e se renova,
uma quase perfeição que me põe à prova
e reprovo contente apenas por respeito
pois está acima da humanidade tal conceito...

Mas onde eu via...

E onde eu via o que todos viam
passei a ver o que mais ninguém vê,
apesar de o quererem ver,
o que faz de mim apenas um melhor observador
pois nunca o escondes...

Mas só se...

Se eu te pudesse dizer o quanto gosto de ti,
o quanto me preocupas,
o quanto me demorou a percebe-lo
e o quanto evoluí para ter de o fazer,
então perceberias...

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Dois camaleões aos linguados ou, por outras palavras, como morrer por amor deixando-se mutuamente pendurados

Era uma vez um camaleão.
Gostava de uma camaleoa.
Ele actuava à campeão,
ela como se fosse boa,
mas ambos eram asquerosos
e acima de tudo babosos.
E aquelas línguas viscosas?!
E compridas e venenosas!
Ah, e colam nos insectos,
os aperitivos predilectos!
Que horror! Vi, é esquisito,
agoniante e nada bonito,
distantes e tão colados:
dois camaleões aos linguados!
Ao longe, pois quem os suporta?
Mas para o amor quem se corta?!
E as línguas, desenroladas,
ficaram uma na outra coladas!
E eles bem que se debatiam
mas após umas horas desistiam
não sem luta, não sem dor;
não é assim mesmo o amor?!
Então que resta? Morte lenta?
Nem um coração reptiliano aguenta!
Disseram, pelo olhar, "como te amo",
e cada um do seu lado no ramo
atirou-se com força igual;
enrolaram-se na corda lingual
e só com uma chance, sem errar,
giraram até se poderem agarrar
e fundiram-se no mesmo vermelho
e nenhum deles morreu de velho,
só de fome e tão bem agarrados,
originalmente para sempre pendurados.

Dois flocos de neve a quebrar o gelo a tempo das comemorações do dia mais quente do ano que por acaso é no meio do Inverno

Um floco de neve, nevou.
E um outro consigo levou.
E pelo caminho tanto lhe prometeu!
Cairam na neve fofa e um derreteu!
O que ficou por baixo, pois, esmagado,
porque o amor entre eles era tão pesado
mas igualmente tão belo e tão leve
como dois insuspeitos flocos de neve.

O Príncipe - Maquiavel

O melhor livro que li até hoje!


E muito mais poderia ser dito... Quinhentos anos depois continua actual, e continuará, pois fala de política, de poder e, simplesmente, de pessoas.

Ficam aqui algumas citações do mesmo, de que gostei particularmente:

"não esqueçamos que não há coisa mais difícil de tratar, de resultado mais duvidoso nem de manejo mais perigoso do que aventurar-se alguém a impor novas instituições, pois aquele que as impõe tem como inimigos todos a quem a ordem antiga aproveitava, e como tíbios defensores apenas os que poderão aproveitar da nova."

"mas quando se vencem os perigos e se começa a inspirar estima, depois de aniquilados aqueles cuja qualidade suscitava o nascimento da inveja, fica-se poderoso, seguro, honrado e feliz."

"Aquele que pensa que, entre as grandes personagens, as benfeitorias recentes fazem esquecer as antigas ofensas, engana-se."

"Convém fazer o mal todo de uma vez para que, por ser suportado durante menos tempo, pareça menos amargo, e o bem pouco a pouco, para melhor se saborear."

"Nada é tão fraco ou instável quanto a fama de uma potência que se não apoia sobre as suas próprias forças. As forças próprias são aquelas compostas de súbditos, ou de cidadãos, ou de outras pessoas que tu tenhas formado: todas as outras espécies são mercenárias ou auxiliares."

"Há uma coisa que se pode dizer, de maneira geral, de todos os homens: que são ingratos, mutáveis, dissimulados, inimigos do perigo, ávidos de ganhar, enquanto lhes fazem bem, são teus, oferecem-te o seu sangue, os seus bens, a sua vida e os seus filhos (...) porque a necessidade é futura, mas quando ela se aproxima furtam-se."

"Os homens hesitam menos em prejudicar um homem que se torna amado do que outro que se torna temido, pois o amor mantém-se por um laço de obrigações que, em virtude de os homens serem maus, se quebra quando surge ocasião de melhor proveito; mas o medo mantém-se por um temor de castigo que nunca nos abandona."

"É justa a guerra feita para aqueles a quem é necessária e as armas santas desde que não haja esperança"

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Estava chuva e abriguei-me e agora sou feliz com ele independentemente das condições climatéricas!

O dia estava frio, e o céu cinzento,
a chuva caía e procurei um abrigo,
não foi só água que trouxe o vento,
veio mais um que se safou do perigo.

Uma pneumonia, que é chata de curar,
não é melhor do que o cabelo ensopado,
em tempestades, e sem sequer procurar,
fui encontrar a bonança ao meu lado.

A simpatia aqueceu-me tanto o peito
como o resto do corpo, então tão gelado,
um dia de chuva pode ser tão perfeito
como um ser só que já se vê abraçado.

A chuva continua mas já não há pressa
quando se tem alguém com quem estar
e de repente o tempo nem interessa
pois o Sol és tu e estou a gostar.

Um dia mais tarde, mais soalheiro,
alguém perguntou como tudo começou,
talvez não tenha sido em Fevereiro,
talvez seja bipolar e nunca pensou.

Talvez um dia acabe por perceber
que o tempo que faz é uma ilusão
e até lá nunca se poderá saber
se há algum de nós que tenha razão.

Folhas prestes a comemorar o dia de São Valentim pt. I

Uma folha olha para outra que se baloiça ao vento
e pensa para si mesma "o teu verde é um monumento";
todas as outras folhas são exactamente da mesma cor!
Então essa pequena folha sente de súbito uma dor,
uma ligeira picada no coração de que é desprovida,
e faz a fotossíntese invulgarmente aguerrida!

Não esperava casos de amor entre as folhas!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Por que insistes em me seduzir

Por que insistes em me seduzir
se já sabes que a ti não me vendo?
Os dias passam, e não parecendo,
tout que tu as dit était avec plaisir...

Por que achas que me vais abduzir
se esse é um convite que não entendo?
Olha o mapa que nesta cama estendo
e deixa-me ser eu a te conduzir...

Mas devo confessar que, na minha óptica,
toda esta luta foi paranormal!,
uma saborosa descarga hormonal!

Devias saber que, nesta luta erótica,
não é não! Sobra-me uma escoriação
e na mão a razão que vence a emoção!

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

A receita para a parasitose!

Como me livro deste parasita
que perante a carne nunca hesita?
Rasga-me a pele, chupa-me o sangue
e ainda espera que nunca me zangue!

Como me livro deste parasita
que se apresenta de cara bonita?
Come-me por fora e até ao tutano
e se me insurjo chama-lhe um engano.

Como me livro deste parasita
se lhe pago eu a casa onde habita?
Não tem pudor e faz-se convidado,
se eu o censuro sou eu censurado.

Como me livro deste parasita
se está tão entranhado que até me irrita?
- Irritas-me a pele e todas as mucosas,
sustento-te a vida e ainda me gozas!

Como me livro deste parasita
que tudo quanto diz ninguém acredita?
E mesmo assim ele nunca se cala;
já a mim tira-me o juízo e a fala.

Como me livro deste parasita
que sentindo poder logo se arrebita?
O poder é meu pois eu te carrego!
Eu abri os olhos, o poder fez-te cego!

Como me livro deste parasita
se a minha vida é por ele escrita?
Apenas tira-se a pena e faz-se um poema
e cada acção pequena resolve o problema!

Como me livro deste parasita
cuja idiossincrasia não se evita?
Evito-me eu do teu temperamento,
para me curar chegou agora o momento!

Como me livro deste parasita
cujos meus bons exemplos nunca imita?
A exemplo disso faça-se a mudança,
enquanto há Portugal ainda há esperança!

Como me livro deste parasita
que todos os cêntimos me debita?
Tira-se-lhe a mama e dá-se-lhe um caralho,
que suba por ele até avistar um trabalho!

Já me livrei deste parasita
pois a minha mente é-lhe restrita;
a cura é possível (é a minha única crença),
mate-se o parasita e cure-se a doença!