quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O Último dos Padrinhos - Mario Puzo

Depois de ter lido "O Padrinho", "Omertà", "A Família" e "O Siciliano" (não necessariamente por esta ordem), seguiu-se um dos livros que já tinha comprado há uns anos mas ficou sempre na prateleira. Até há dias. E depois de ler mais um de Mario Puzo, a vontade que tenho é de continuar a conhecer a obra deste autor.

"O Padrinho" é melhor, sem dúvida. E este não está muito longe em termos de ideias. Volta a haver um poderoso Padrinho (neste caso, e literalmente, o último dos Padrinhos) cuja Família é a mais poderosa da América, volta a preparação de uma nova geração que lhe sucederá e o recorrente tema da legitimação das actividades mafiosas através de receitas legais, como o jogo (apostas e casinos), o cinema, e, em menor extensão, a restauração, a construção e o jogo da bolsa, no caso Wall Street.

Algo que acho curioso neste livro, e que já estava presente n'"O Padrinho III", o filme, pois o livro só dá origem aos dois primeiros filmes da trilogia (para já), é a noção de que quanto mais se sobe na "hierarquia social" (seja lá isso o que for...), quanto mais se tenta legalizar a actividade da família, mais corruptos, oportunistas e ladrões se encontra. Talvez com outros nomes, talvez mais bem disfarçados, talvez mais bem engravatados e mais rodeados de advogados. A certa altura, os maiores mafiosos nem parecem ser os Americanos descendentes de Sicilianos mas sim os grandes produtores de Hollywood, os gestores dos casinos e, obviamente, os políticos.

Acho igualmente curioso o elevado número de personagens e histórias paralelas que encontramos neste livro. Pode-se argumentar qual será a história principal do livro; creio ser este esforço de "legalização" da Família, esta visão de Don Domenico Clericuzio, acertada, a meu ver, e de tudo o que é preciso fazer para este fim, chegando a um maquiavelismo sórdido capaz de levar um sobrinho a matar um neto que destruiria a visão do avô. Um avô que o acarinhara e lhe ensinara tudo. Não o poderia matar, obviamente, mas induz o sobrinho a fazê-lo, incoscientemente. Sublime! Tudo o resto são histórias, não menos interessantes, sobre o fascinante mundo (e submundo) de Las Vegas e Hollywood, que é como quem diz das poderosas indústrias dos casinos e do cinema.

Admiro-me como este livro deu origem a uma mini-série e não a um filme (necessariamente longo) mas claro que Hollywood teria sempre alguma resistência em expor os seus podres. Sinto sempre alguma desilusão quando vejo os filmes que chegam de Hollywood e creio que este livro tem mais "história" do que muitas das últimas produções que tenho visto...

Há um Padrinho do cinema, há um Padrinho dos casinos, há um Padrinho da última família rival e há o último dos Padrinhos que se aguenta aos rigores da passagem do tempo como um símbolo da sua própria ambição desmedida. E sempre a dar conselhos aos seus descendentes. Conselhos que se revelam sempre acertados. Apenas no final do livro todas as pontas soltas se unem e a teia é fantasticamente tecida; ao longo do livro senti-me várias vezes amarrado nesta teia, impossibilitado de me soltar, atento a todas as direcções à espera de uma qualquer aranha para me atacar. Há alturas em que a narrativa é totalmente imprevisível, o que torna o livro interessante e não apenas uma cópia ou uma continuação d'"O Padrinho". Há um estilo próprio, mais abrangente, com a acção a esticar-se de Nova Iorque a Las Vegas, com direito a umas pequenas passagens pela Europa via Sicília, Nice e Paris. Políticos corruptos, políticos alcoólicos, políticos abstémios, crianças autistas, argumentistas geniais, argumentistas desprezados, fornicadores amadores, fornicadores profissionais, proxenetas produtores, produtores de orgias, organizadores de eventos, doidos, inteligentes, esclarecidos, sapientes, artistas, vedetas, drogados, ex-drogados, drogados feitos senhores, conhecedores, polícias corruptos, ex-polícias corruptos, ex-polícias corruptos agora assassinos, futebolistas, ex-futebolistas, ex-futebolistas suicidados, gaiolas vazias, gaiolas cheias (e não de pássaros), iates no mar alto a largar gaiolas, orgias e outras festas, dinheiro, fichas, roletas, ...; isto nunca mais acaba, um livro que parece chegar a todos os cantos da sociedade americana, um livro que põe a nu as estratégias mais escabrosas para deter o poder, nas suas diferentes formas. A ler e a reflectir.

Como de costume, deixo aqui algumas das citações de que mais gostei, e sublinho a primeira, de um livro que adorei ler e que dificilmente esquecerei.


"O passado é o passado (...). Nunca lá voltes. Nem para procurar desculpas, nem justificações nem felicidade. Tu és o que és, e o mundo é o que é." (29)

"Nenhum homem consegue esconder a sua verdadeira natureza a alguém que viva próximo dele muitos anos." (72)

"Tudo parecia confirmar o velho truísmo de que uma pessoa corre sempre mais perigos com a lei quando está inocente do que quando é culpada." (81)

""O mais importante na vida é ganhar o pão de cada dia."" (88)

"Como qualquer artista, queria que o mundo a amasse." (132)

"A sorte, porém, compraz-se a desfazer os planos mais argutos (...), a mais insignificante das criaturas pode ser o agente causador da perda do mais poderoso dos homens." (162)

"O mal era que toda a gente se tornava mole por causa de uma boa vida." (179)

"Os velhos hábitos custam a morrer." (183)

"Devia ter casado outra vez. As viúvas são como as aranhas. Tecem demasiadas teias." (185)

"Para inspirar verdadeiro amor, um homem tinha igualmente de ser temido." (284)

"Toda a gente é responsável por tudo o que faz." (288)

"Os excêntricos fazem coisas esquisitas para desviar a atenção dos outros daquilo que fazem ou são. São envergonhados." (318)

"Como o Don costumava dizer, não fazia mal cometer erros, desde que não fosse um erro fatal." (360)

"Claro que, na vida real, não havia nada que estivesse exactamente na "conta certa"." (361)

"Quase todas as tragédias são estúpidas." (372)

"Toda a gente tem azar uma vez na vida." (379)

"É perigoso ser razoável com gente estúpida." (399)

"(...) um mundo sem valores e sem sentido de justiça não pode continuar a existir." (399)

"Toda a gente tem suspeitas a respeito de tudo. É próprio da natureza humana." (401)

"Mas, oh, que perverso era aquele mundo que obrigava um homem a pecar!" (476)

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Ilusão

Penso, num certo sentimento,
frio e duro como esta tempestade,
desconfortável como a chuva e o vento;
vem o sol e não me seca a saudade
quando descubro que uma grande ilusão
só pode acabar em uma grande desilusão.

Agacho-me, só no meu canto,
frio e duro como esta parede,
por que tive de passar por tanto
se nada há que me sacie esta sede
de vingança perante tanta injustiça?
Tenho esperança que ainda haja justiça?!

Deprimo, na minha mente,
fria e dura como eu não pensara,
serei menos gente do que a gente
que se ri enquanto a minha ferida sara?!
Pois a cicatriz que carrego será eterna,
rasgada por aquela que foi falsamente terna:
chamas-te ilusão,
venceste a razão
e tudo estaria certo
não fosse este deserto
que percorro após a tua tua transformação
em desilusão. Enfim, as pessoas são como são...

Escrevo, todo um testamento,
frio e duro; como a vida me altera ...,
dá-me um pouco de paz e alento
mas para sempre nunca se espera!
Quando sabes que tudo muda e não o controlas
só podes aprender com o como te descontrolas.

Regurgito, todo um passado,
frio e duro que nem o piloro passa,
ácido, básico, feio e ensanguentado
o meu corpo resiste à lança que trespassa:
qual cupido? Não! O meu coração dolente,
e tão empedernido, será que ainda algo sente?

Grito, e ouço a minha voz,
fria e dura a ecoar sem rumo,
quero atingir todos os que como nós
sobreviveram à chama e vêm entre o fumo
que tenta ofuscar o óbvio que todos pareciam prever,
e que nós também sabíamos mas não quisemos ver:
chamas-te ilusão,
venceste a razão
e tudo estaria certo
não fosse este deserto
que percorro após a tua tua transformação
em desilusão. Enfim, as pessoas são como são...

sábado, 13 de outubro de 2012

Chegas ao fim do passeio e atravessas a estrada...

Chegas ao fim do passeio e atravessas a estrada...

O Sol brilha com igual intensidade

O Sol brilha com igual intensidade
àquela com que brilhava na Primavera
e se queres ter uma opinião sincera
sabe que eu não digo senão a verdade!

Visto-me e revisto-me de ansiedade
à espera de sair e de te ter à espera
e espero por ti e já se desespera
porque não sei se é atraso ou maldade...

O cabelo é comprido, está atento,
um dia vamos sair e comer um gelado
e os fechinhos fechados até reluzem.

Abraçar-me-ás num dia frio de vento
e veremos que o teatro foi bem encenado
de marionetas que por nós se conduzem.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Queijo e cenoura

Esconde a tua revolta: volta!
Volta a ser o que havias sido
e deixa de ser assim tão convecido
pois eu sei que tu não és assim! Sim, não és, não!

És capaz de comer duas no mesmo dia,
tu que és um dependente do bife,
não esperes que eu espere mais por ti
porque queiras ou não há mais quem queira
e eu quero quem me quiser apesar da química
que sinto enre nós e estes nós que crias em nós
são como estas nódoas no meu pescoço
e que não reparei e que não senti
mas tu sabias e não me disseste
e agora sabes e não me dizes
e estás a atar os laços soltos deste colar
e se calhar não te vais libertar
desta prisão que tu criaste
e então vais ter a certeza que erraste!

Complexo, esta realidade não tem nexo!

A tua resposta foi muito curta,
tens de explicar melhor,
andas a brincar comigo?!
Achas que tenho idade para isto?!
Decide-te!
Até podemos ir à Itália juntos,
e voltar juntos,
e continuar juntos,
e ver as fotos juntos
e juntos discutir
e planear
a próxima viagem!

Depende da maneira como me queres conhecer,
depende do que queres ser em vez de parecer,
depende de ti, não de mim,
depende de te decidires a deixares-te conhecer,
qual o meio e qual o fim
quando és assim
e não te posso entender?

Não sou de falar muito,
sou de sentir muito
e não me deixas sentir o que quero...
Por que não!?
Que te fiz para me tratares assim,
tão mal,
tão mal,
tão mal...

Tão mal...
Estão mal...
Estão mal...
Estás mal...
Estamos mal...
Estás mal...
Está mal...
Mal...

Mal-estar...

"Dava tudo para conseguir arrancar de ti a sensação de seres tudo o que não és!" ...

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Demos as mãos

Demos as mãos
e sobre as minhas passeaste os teus dedos,
sentimentos irmãos,
a fraternidade com que partilhas os teus medos,
a doçura com que me revelas os teus segredos;
disse que não íamos ficar por aí e, qual Nostradamus,
a viagem foi muito para além destas mãos que nos damos...

Foi um abraço
e sobre o mesmo passeaste os teus braços,
comum o espaço,
comungámos inocentemente em longos passos
a sobriedade de carácter dos nossos traços,
marcados na areia molhada que até hoje pisamos,
a viagem foi muito para além do quanto nos abraçamos...

Era carinho
e sobre ele passeaste as tuas carícias,
meu caro vizinho
partilhamos nesta mesma rua várias delícias,
empanturramo-nos das iguarias mais propícias
à diabetes de que não sabemos se escapamos,
a viagem foi muito para além daquilo que acariciamos...

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Depressão, ansiedade e outros estados mentais

Correm sem parar e não abafam os seus gritos,
ajoelham-se no altar da senhora dos aflitos,
mamam uns xanax como se fossem conguitos,
têm a certeza que fazem parte dos proscritos.

Depressão, ansieade e outros estados mentais,
carnes coaguladas transformadas em vegetais,
mentes estagnadas cuja inteligência rejeitais,
vagueiam no vosso destino, as alas dos hospitais.

Fumem umas ganzas como o meu médico aconselha,
acreditem que com a minha idade não estou velha,
finjo-me de parva e faço tudo o que me dá na telha
e rio-me na minha cara na minha pele que se engelha.

Sento na cadeira, ouço o som da minha guitarra,
falam muito de formigas mas prefiro ser cigarra,
tenho a minha personalidade e ninguém me agarra
pois só com a minha atitude é que ela se esbarra.

Eu quero amor e paixão como se vê no cinema,
não faço questão nem vejo nisso um problema,
mas o tempo passa e iludo-me já por sistema;
só a podridão da escolha errada é algo que tema...

Complexo

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Não.

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Não!

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Sim.

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Sim...


.
...


Talvez...


Sim!

Sim?!

Sim!

Não?

Não?!

Não!

Sim.

Talvez.

Afinal é talvez.

Talvez...

Pois...

Deve ser...

Mas...

Mas o quê?

Enganas-me.

Enganas-me.

Enganas-me.

Não é fácil...

É complexo!

Ambivalente.

Incoerente!

Desinteressante.

Deixa-me.

Deixa-me!

Deixa-me em paz...

O mundo por vezes é tão complexo
e esta realidade não tem nexo.

Recuso-me a falar mais contigo.

...
...
...
...
...
...
...
...
...
...
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Escusas de falar mais comigo.

...
...
...
...
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...
...
...
...
.

É parecido.

Não é igual.

Não.

Não.

Mas...

E então?

Então...

Chega.

Isto é difícil...

E já beijei gajas e tal e... enfim... não colou.

Mas senti imenso.

Não é uma questão de escolha.

Que estou aqui a dizer? Não sei.

Por isso e tudo tão complexo.

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.
.
.
.
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.

Ponto final, parágrafo.

Igual.

Complexo.

E já sabes...

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Simples

E quando o mundo se tornou mais complexo,
parei, pensei e fiquei simplesmente perplexo
perante tanta e tão boa simplicidade!
E parou, de repente, o toque da ansiedade.
O cansaço, inoportuno, mas tão presente
virou para uma paz que me deixou tão contente
quanto saber o que, imagine-se, a causara!
E surgiu-me, no horizonte, uma afável cara!
Mais cara não me podia ser, tão confortável,
tão simples que se tornou até, veja-se, desejável
e então as peças do puzzle juntas tornam claro
que é por vezes no mais simples que não reparo.
Deparo-me, ainda assim, com uma memória,
recente, de quando quis mudar a história
e parece que não consegui, que insucesso,
ainda bem que nem tudo o que não quero impeço.
Como eu não te compreendo e como te invejo,
como me tento afastar e como te desejo,
como pude ter os olhos fechados se é tão evidente
que a tua simplicidade é tão atraente...
Imagina que havia dois de mim, que decadência,
e o tempo que foi perdido, bem, paciência,
não sabemos o que queremos, vamos indo e vamos vendo,
o futuro não é o ideal, é o que vai acontecendo.

Para quê complicar o que pode ser simples?

Afinal, quem tem que aprender com quem?

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Olá! Já sei porque fizeste o que fizeste

Olá! Já sei porque fizeste o que fizeste
E até to diria mas será o nosso segredo.
Não temas porque esta mensagem é um teste
Às aptidões daqueles que fogem do medo
Como eu fujo de certos lugares isolados.

Não tenho medo de ti agora que sei quem és.
Antes não tinha porque pensava te conhecer...
No dia em que finalmente me deste com os pés
Doeu-me todo o corpo de tanto estremecer
Pois deram-me arrepios gelados que adorei!

"Um dia não são dias" ouço tantas vezes dizer
A pessoas que vagueiam como as ondas do mar...
Idos os dias em que nos enchiamos de prazer
E aqueles em que continuávamos a tentar amar
Ficou aquela espuma sobre o teu moreno areal...

O sal da vida, o que nos define, são os momentos
Que nos distinguem daqueles que não questionam
O porquê de tudo o que nos rodeia... Tormentos
São esperanças dum Mundo melhor mas que me tornam
Apenas mais um alienado com a boca sequiosa...

15-09-2008
(in http://ansam518.files.wordpress.com/2011/03/the-number-27.jpg)

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Tenho saudades dos campos de trigo

Tenho saudades dos campos de trigo
onde corria sem rumo mas contente,
em nada pensava e agora não consigo
deixar de pensar, descansar a mente...

Ir sempre em frente era o melhor caminho,
não havia espaço para quaisquer enganos,
mesmo estando não me sentia sozinho,
são as melhores memórias que guardo há anos...

Tão longe e tão perto,
sei que o mais certo
é não lá voltar;
dourado deserto,
um sonho aberto
que me dá bem-estar,
mas quando acordo
e disto me recordo
dá vontade de não despertar...

Tenho saudades dos vários insectos
que à minha volta se coleccionavam,
desde aí passei por vários aspectos
que por esses dias nem se equacionavam...

Sorriso fácil, tudo era aprazível,
amigos eram todos os que avistava,
a minha voz doce era sempre audível
e estava sempre bem onde sempre estava...

Tão longe e tão perto,
sei que o mais certo
é não lá voltar;
dourado deserto,
um sonho aberto
que me dá bem-estar,
mas quando acordo
e disto me recordo
dá vontade de não despertar...

Tenho saudades do cheiro da terra
que húmida se evaporava no ar,
e se é certo que toda a gente erra
erro eu em tardar a regressar...

Paz instalada, ouço bem a cigarra,
fresco numa pedra à sombra instalada,
desato a correr e ninguém me agarra,
liberdade tão boa no tempo estacionada...

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Silêncio.

Silêncio.







Silêncio.






Silêncio.





Silêncio.




Silêncio.



Mais... silêncio.



Mais...



Silêncio...



...



Posso ouvir tudo com clareza mas só ouço... silêncio.




Assim estivesse surdo e ouviria mais do que silêncio...


Pois que não haveria silêncio há minha volta, apenas na minha mente,
e contudo este silêncio que me abraça está em mim tão presente...


E silencia-me.


Podia falar mas para quê?!


A parede responderia, é verdade,
a cada vibração reflectida,
mas tenho aquela saudade
de ver uma ideia debatida
e a parede só me dá mais do mesmo,
só me dá a minha opinião...

E distorcida...

E quero outras...

E não as tenho...


Silêncio...


Onde me escondo...


Que me esonde...


Vou para onde?

Neste buraco...


Silêncio...

Melancolia.


Desespero.

E porquê?

Nada se passa,
que calmaria,
era só isto que eu tanto queria
e agora que o tenho, como me sinto?!

Silencioso e extinto!

Extingui-me, como uma luz que definha até desaparecer...

Como um lume que crepita até apagar...

Devagar....


Muito devagar...

Até que nada se vê,
nada se ouve,
nada aquece...
E a força dos homens desaparece...

Imenso, é este silêncio.

Gigante.

Intenso.

E até pensar faz barulho.

Pensei nisto.

E isto desfez a paz que me consome.

Tenho fome.

De silêncio.

Quero voltar
a estar
em silêncio.
Sem pensar.
Sem me alimentar
nem alimentar a esperança
de um dia voltar a ouvir
uma voz que seja
pois estou calado
quem me ouve
são os outros e nunca eu...

Quem os ouve sou eu
e não os ouço
e então o silêncio é extremo...

Deixem-me estar em silêncio...

Para sempre...

Sempre...

Sempre...

Sempre...




Às voltas com o tempo...

Chovem raios de sol,
nas paredes do meu quarto,
e acordo do sonho,
e afinal chove mesmo...
mas água! Claro!
Clara!
Cristalina!
Só que é ácida!
Azar, azar,
não a quis provar
e pareceu-me boa
para tomar
um banho
sem gastar a canalização!
E... tomei!
O banho!
Com a água da chuva!
E... gostei!
Apesar de estar fria!
Mas...
hey Pedro, manda sol!
Manda sol!
Só para mim!
Só hoje!
Vá lá...
Vá...
Eu desnudo-me para ti!
Vá lá...
Vá...
Não vou insistir,
não vais resistir
quando te disser
a razão de tal paz!
Paz! Paz! Paz!
E chove, chove,
chove mais...
E é Verão!
Verão!
Verão como é
o Inverno!
Gelado!
Ai não, aquecido!
Derretido!
E algures
no meio do caminho
as folhas caíam
mas era da chuva
ácida
e não do
Outono!
Camada de ozono!
Desfeita!
Flores! A ...
desabrochar!
Devagar...
Devagar...
Devagar...
Ui ui ui...
Já está,
já é Verão!
Não, Primavera!
Não, espera,
não sei!
40 graus
mas é Janeiro?!
São rosas, meu senhor,
serão...
Tudo pode ser agora...
Agora?
Quando?
Já?
Já já?
Já já já?
Não tenho tempo para isto...
Não...
Tempo.
Com tempo.
Tem tempo.
Há tempo.
Foi tempo.
Será tempo.
A tempo...
Tempo...

Alquimia sentimental

Alquimia sentimental, tendo uma pedra em vista,
não a filosofal, uma sentimental que não me resista;
como posso saber se há ouro no teu coração empedernido?
Será que é frio por ser de metal ou por já ter sofrido?
Eventualmente como o coração de muita gente
que sobreviveu à traição de um fogo quente
onde os humores se evaporam no ar, destilados,
onde os amores perdidos foram já encontrados...

Quero uma poção fundamental, não me vendam a banha da cobra,
um metal tão resistente que seja pau para toda a obra,
quero viver para sempre, ou até encontrar o que procuro,
então verei a razão e terei feito o destino que tanto auguro.
Onde está o remédio para tudo, minha deusa Panaceia,
se a luta é constante haverá uma Themis que a premeia?
Chorei lágrimas de prata sobre o meu cadinho de porcelana
onde macerei folhas da árvore-de-judas por quem me engana...

Já me cansam aqueles que brincam no fogo, os charlatães,
pensam que ignoro o seu jogo... Uns da areia são capitães,
perdidos num Mundo inconsequente, outros são da areia grãos,
inconsequentes pela sua pequenez mas somos todos irmãos,
dizem os crentes, pois os alquimistas dizem só liberdade!,
mas da prisão dos sentimentos escapará alguém com saudade?
E o fole incentiva a chama com que se encarvoa o caldeirão,
e os sentimentos que se complexam quão complexos serão?

Agradecimento especial à Filipa Mendonça, cuja alquimia sentimental continua em estudo...

domingo, 22 de julho de 2012

Homenagem a "La Maja Vestida" com pomenores da actualidade que justificam o interesse superior no quadro que se me apresenta

Não vou estar aqui com delongas
porque o assunto é sério!
Sim, foram as pernas longas
que me tiraram do sério!
A sério, não precisas de mo perguntar.
Não, a sério, deixa-as estar
mas vê lá se tiras as sandálias
de cima da cama! É mesmo necessário?
É que essas flores... são dálias?
Não... são rosas? Pelo contrário,
a pose não está pouco interessante...
Bem, o pormenor do calçado é irrelevante.
Mas assim nem se notam as flores
contigo a tirar-lhes o brilho...
São pálidas e por falar em cores
lá voltam as sandálias a dar estrilho
nesse vermelho vivo. Ou é carmesim?
Agora fiquei na dúvida. Avancemos.
Sabes que o meu maior interesse é em mim,
sou humilde mas modéstia à parte,
temos de ter interesse no que vemos
e, como se diz, quem parte e reparte...
Mas não te partia, o melhor são as pernas
mas o resto também é interessante
que eu no fundo até gosto da atitude
e tal... O vestido é provocante,
e contemplá-lo-ia amiúde,
mas tens de encher melhor isso,
sendo-te muito sincero;
tenho é de quebrar este enguiço
de não ter aos detalhes total acesso,
não que seja má a resolução, espero,
sabes que sou um analista, confesso,
analiso tudo, e no fundo será renda?
Fica lá muito bem! Os meus parabéns!
Afinal pode ser que de ti algo aprenda
com tanto bom gosto na apresentação!
Quanto ao veneno que sempre tens,
bem, nunca o vi tão evidente!
Que já estás da cor que eles são
e a cauda dissimula-se mas está presente,
quase a vejo no ar, à espera da presa,
ai que bem que tu os pões em sentido!,
sei bem que é essa a tua natureza,
mas outrém porventura menos esclarecido
com certeza que se punha a jeito!
O teu disfarce é quase perfeito!
Quase porque eu o descobri! Agora!
Ambos sabemos que há muita carne lá fora
mas qual Maja vestida, qual quadro de Goya?,
será que alguém vai na tua paranóia?!
Contudo, é um belo quadro, cativante!
Uma boa inspiração, quase até excitante!
Que estás a magicar, com esse ar tão sereno?
Aposto que depende para onde balança o veneno...
;)

Uma dor lancinante no osso sacro

Diz o povo sábio, com tal indiferença,
assim: "cada cabeça sua sentença",
e tem razão, pois há senso no comum,
há tanto no vulgar que é, só, nenhum.

Inebriado já pela bem-querença,
a inédita droga, na tua presença,
esfuma-se, bela, no ar oxidante,
artefactual estado dilacerante.

A paixão repete-se a todo o instante
como uma faca aguçada, penetrante,
como um relógio que não se regula,
adiantado, desde a pele até à medula.

Uma dor lancinante no osso sacro
com que, orgasmicamente, me massacro;
venho-me em ti com igual satisfação
à que encarno no papel de realização.

Filmado quem o suporia original?,
tal o conteúdo surreal, marginal,
eventualmente presente no teu peito
úbere, com que o povo é satisfeito.

Quem é detentor de tanto conhecimento?
Quem é o ocaso? O ócio? O esquecimento?
Um momento só de verdadeira paz,
um monumento só onde a verdade jaz.

Desliga-o, já, recolhe-lhe todos os cacos
e atesta-lhe de remédio os buracos
pois há quem tenha tido muitas doenças
apesar de este contexto recusar avenças.

Porcelana, cambraia, enfim, um brocado
pungido freneticamente, não depurado,
uma beleza incontestada mas gasta,
por que é que alvo algodão não te basta?!

Visitante 5000

Este poema é dedicado à Sofia;
diz-se que sempre alcança quem porfia,
e uns obtêm-no de forma bem subtil:
conseguiu ser o visitante 5000!

Há sempre razões para uns porquês,
não queria este poema, por timidez,
mas apresentou as provas requeridas
e as promessas são para ser cumpridas!

Ambos, não acreditamos em magia,
protegidos pela mesma astrologia;
basta que tudo seja bem ordenado
para se poder viver mais descansado.

Descansado demais, vai por mim, acredita,
que este efeito na pele até irrita,
não menos do que picadas de insectos,
que sentes, como sonhos bem concretos.

Este é nem o último, nem o primeiro,
má memória, boa fortuna e não é dinheiro,
ai os ciúmes, que são até pecado,
escritos de mim todos têm um bocado.

Serão as palavras um mal necessário,
espero também a estas um comentário,
estas são só tuas, se não me apoquentas,
minha fiel amiga de leituras atentas.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Memorial do Convento - José Saramago

Ao contrário da maioria, o meu primeiro contacto com Saramago não foi através deste livro mas sim "A Jangada de Pedra". Prefiro o segundo, ou seja, o primeiro que li, entenda-se, mas, como se diz, "não há amor como o primeiro"... São dois livros fantásticos, contudo, e espero continuar o meu estudo da obra de Saramago. Obrigado Lisete por me cederes a obra, boa leitura Marta que a estás a ler.

Começo já por criticar o facto de ser um livro de leitura obrigatória no 12.º ano (bem, nas escolas que o escolheram). A mim coube-me a "Aparição" e daí o meu contacto tardio com o nosso Nobel. Que o romance de Vergílio Ferreira é de qualidade inferior, acho que não há duvidas; de igual modo, o livro de Saramago escolhido também me parece demais para jovens imberbes. Algo a meio caminho eu recomendaria, e a nossa literatura é riquíssima; os nossos decisores nem tanto.

O meu receio prende-se com a leitura difícil, nomeadamente num primeiro contacto, nomeadamente nas primeiras páginas. Creio que isto demoverá muitos do prazeroso acto de ler o livro; convenhamos que há muito a fazer para criar bons hábitos de leitura na nossa população, população jovem incluidíssima e esta obra parecerá aborrecida e, acimda de tudo, difícil e impenetrável para muitos... É uma pena se a determinação for baixa pois a obra é de qualidade elevada e, se assim o quiserem ou conseguirem, dá para reflectir e muito sobre o nosso pequeno país. Há problemas actuais que já existiam no antigamente e que vão continuar a existir enquanto não nos olharmos ao espelho e decidirmo-nos a mudar. E se os nossos políticos são péssimos, e sempre o foram, de um modo geral, também a atitude do povo é condenável, sempre subjugado a medos vários, sejam os da fogueira, naqueles tempos, sejam os do desconhecido, então, agora e sempre. Na única vez que nos aventurámos no desconhecido, uns verdadeiros empreendedores (termo que está na moda), conquistámos um império sem igual. Depois de o conseguir, estagnámos... Até hoje.

Para quem ainda não percebeu, o D. Sebastião nunca vai voltar! É a nossa inércia e resistência à mudança, é a nossa complacência, a nossa subjugação ao poder, é um convento construído com mão-de-obra escrava, é a Inquisição, é a falta de cultura de um povo, a falta de educação, é a condenação da diferença e a inveja de vermos os nossos a serem melhores do que nós; é o egoísmo, é uma jangada de pedra à deriva, de facto, e talvez separada de Espanha, somos uma ilha na Europa...

Um rei que vive acima das possibilidades (o rei, não o povo, atenção a esta fina distinção), uma igreja dogmática, inquisitória e sedenta de sangue, dinheiro e poder, "pão e circo", como uns séculos antes, a manterem o povo, escravizado, ocupado, inculto e dominado. Mais de dois séculos depois, e após a mudança de milénio, só mudam alguns pormenores pouco relevantes. Já não se enchem os touros de explosivos, "apenas" se espetam bandarilhas no dorso; já não há "bruxas" condenadas à fogueira pela Santa Inquisição, apenas um entorpecimento geral no país com maior consumo de anti-depressivos de toda a Europa; já não se recrutam escravos para construir conventos, faz-se de toda a população escrava, com promessas de "isto vai melhorar" e nunca melhora, por que será?, se há mais de 200 anos que não melhora, se não pontualmente, em episódios bonitos e aplaudidos, pequenos desvios que não nos tiram deste caminho de estagnação, hipocrisia e corrupção; já não temos um rei boémio, ocioso, néscio e desligado do seu povo, temos políticos boémios, ociosos, néscios e desligados do seu povo. Tudo igual, portanto.

Um Padre visionário que acaba por ter de fugir da Inquisição, um ajudante maneta (consequências da guerra num antigo soldado...) que acaba na fogueira; que pecado cometem? Querer voar! Uma jovem com poderes adivinhatórios que vê mais do que todos quando está em jejum, e cumpre assim o ritual matinal de degustação do pão, esse alimento indispensável à nossa nação, excepto quando quer ver mais. Esta "bruxa", assim seria considerada naquele tempo, é a única que escapa à fogueira, ou às investidas inquisitórias, ironicamente, mas não se livra de passar os últimos anos da vida numa busca incessante pelo seu amor, o ex-soldado, que acaba por encontrar semi-consumido pelas chamas "purificadoras" do último auto-de-fé a que tivemos o desprazer de assistir, pois todos foram demais. Uma passarola que efectivamente voou, pecado!, e que confundiu todos, poucos, quanto a viram mas que ficou no esquecimento geral menos nos de má mémória, que afinal a têm boa, outra vez ironicamente, os das fogueirinhas, obesos repesentantes da Igreja Católica, tenham vergonha na vossa história.

Um convento majestoso, construído por promessa da sapiência dos fogueirinhas, versão franciscana, aproveitando-se da pouca sapiência do nosso D. João V, nem terá sido o pior dos nossos reis, longe disso, imaginem os outros, eram outros tempos, é verdade, mas sempre houve pessoas e hierarquias, este tinha apetites sexuais por freiras, que hoje também os haverá como sempre houve mas são outras questões, e a sapiência destas raças católicas, digamos assim, aproveitando-se da opulência da nossa corte, pois o Brasil é grande agora e já antes era, fazem com que tudo seja possível, até escravizar o povo para agradar a outro povo, pois nem todo o povo é igual e uns que estão até mais bem alimentados têm mais regalias do que os que passam fome mas trabalham mais, ainda hoje é assim, qual o espanto?!

Um magnífico retrato do Portugal do início do século XVIII, do cheiro nauseabundo, do povo esfarrapado, do clero mal habituado, do reino abastado e da falta de rumo de um rei mal aconselhado. Há ainda espaço para uma história de amor, não menos interessante, de duas personagens "exageradamente" introspectivas para aqueles que os rodeiam, deliciosamente interessantes, com as suas características únicas, Blimunda e Baltasar, na tradução inglesa este amor dá título ao livro "Baltasar and Blimunda", tradução discutível pois é redutor, o livro não retrata uma história de amor, a meu ver, apesar de conter uma, apesar de estarem presentes no "centro" da narrativa, apesar de, pelas suas acções, se contar a história do livro, apesar de ajudarem a construir a máquina voadora, apesar disto tudo. Se Saramago quisesse enfatizar a história de amor, eventualmente teria chamado "Baltasar e Blimunda" à obra, por que não se eles lá estão sempre presentes?, mas não o fez.

A pontuação. Essa discussão interminável. Vou dar aqui a minha opinião, após a minha segunda obra de Saramago. Comecei por ouvir falar do nosso Nobel como "o que não sabe pontuar", "o das frases intermináveis", "o que não se consegue perceber nada porque não põe vírgulas", e tive de ler as suas obras para perceber o quão desajustadas são estas afirmações. Esta pontuação característica, e não diria inexistente pois ela existe, talvez mais parcimoniosa, aceito, imprime velocidade e acção à história. Esta novidade de Saramago deve ser celabrada, e não condenada, pois torna o seu estilo único e inconfundível, saboroso e cativante; deixem-se de dogmas, se não não percam o vosso precioso tempo a ler este livro.


Deixo algumas das citações que mais me marcaram:

“... pairam cheiros diversos na atmosfera pesada, um deles que facilmente identificam, que sem o que a isto cheira não são possíveis milagres como o que desta vez se espera, porque a outra, e tão falada, incorpórea fecundação, foi uma vez sem exemplo, só para que se ficasse a saber que Deus, quando quer, não precisa de homens, embora não possa dispensar-se de mulheres.”

“... pela casca não se conhece o fruto se lhe não tivermos metido o dente.”

“Se Deus é maneta e fez o universo, este homem sem mão pode atar a vela e o arame que hão-de voar.”

“ (...) é extraordinário como se formam um homem e uma mulher, indiferentes, lá dentro do seu ovo, ao mundo de fora, e contudo com este mundo mesmo se virão defrontar, como rei ou soldado, como frade ou assassino, (...) alguma coisa sempre, que tudo nunca pode ser, e nada menos ainda. Porque, enfim, podemos fugir de tudo, não de nós próprios.”

“ (...) a pobre não emprestes, a rico não devas, a frade não prometas (...)”

“Este é o dia de ver, não o de olhar, que esse pouco é o que fazem os que, olhos tendo, são outra qualidade de cegos.”

“ (...) tudo termina num buraco, no caso das formigas lugar de vida, no caso dos homens lugar de morte, como se vê não há diferença nenhuma.”

“ (...) é um defeito comum nos homens, mais facilmente dizerem o que julgam querer ser ouvido por outrem do que cingirem-se à verdade”

“ (...) Lembrai-vos de que quando Pilatos perguntou a Jesus o que era a verdade, nem ele esperou pela resposta, nem o Salvador lha deu, Talvez soubessem ambos que não existe resposta para tal pergunta, Caso em que, sobre esse ponto, estaria Pilatos sendo igual de Jesus”

“ (...) quanto mais se for prolongando a tua vida, melhor verás que o mundo é como uma grande sombra que vai passando para dentro do nosso coração, por isso o mundo se torna vazio e o coração não resiste, oh, minha mãe, que é nascer, Nascer é morrer, Maria Bárbara.”

“Tudo no mundo está dando respostas, o que demora é o tempo das perguntas.”

quinta-feira, 28 de junho de 2012

A maré aqui só sobe uma vez por mês

Mel e abelhas,
flores e jardins,
céu azul e sol,
isto e aquilo,
bla bla bla,
que animação!

Morte e sorte,
juízo e justiça,
chuva e granizo,
orvalho e neve,
bla bla bla,
as coisas são como são!

Pega num pincel,
molha-o em tinta,
não interessa a cor...
E atreve-te,
pinta!
Pinta!
Pinta tudo!
Tu sabes como o fazer,
por que não o fazes?
És tu, só tu,
só tu o podes fazer...

Uma folha de jornal
que me sujou as mãos,
negras, cinzentas, que interessa?
Estão sujas
e chego ao lavatório
e tenho de as lavar
(mas não sei porquê)
e não sei porquê...

Não vou lavar as mãos!
Não as lavo!
Porquê?! Por que hei-de as lavar?!
Não me interessa
que me macule
a roupa já maculada
de um dia igual aos outros
em que fiz o que fiz sempre
e sempre faço até me cansar...

E estou cansado...

Cansado de lavar as mãos.

Cansado do sol.

E do escuro.

Cansado de tudo.

Das pessoas.

E da ausência de pessoas.

E...

Queria cozinhar
mas depois fica um cheiro a caril que ninguém aguenta
e prefiro ir ao chinês
porque é mais barato
e o gelado frito é interessante,
aquele jogo quente/frio, sabes?

Mas nada como um bom frango de caril...

Entretanto estava chuva
e eu nem tinha reparado
e não tinha protecção
e tinha medo das doenças
que daí poderiam resultar,
como a gripe e a gonorreia,
e decidi ficar quieto,
num canto, à espera,
abrigado, que tudo passasse
mas não passou
senão após vários dias de espera,
longa espera,
desesperante,
cáustica, desidratante,
e queria apenas um mojito
mas eis que acaba o rum,
e eu penso
"como é possível?!".

Mel, gosto de mel,
gosto do teu mel,
é diferente dos outros,
é mais suave, enfim,
mais...

Falta-me a palavra...
Frequentemente falta-me uma palavra,
aqui e ali,
e...

terça-feira, 26 de junho de 2012

Discorrendo sobre a realidade

Discorrendo sobre a realidade
fica sempre um certo sabor a amargo,
não obstante provando, sem embargo
de saber se é mentira ou se é verdade.

Queria distinguir amor de amizade;
queria saber para cada o meu cargo
mas como?, cada sentido é tão largo
quando, entre dois, falta unanimidade...

É tão verdade que a dúvida mata
como me é tão fatal a mentira;
ai confiança, por que és tão ingrata?

Como vou saber qual destes prefira?
O fim é uno à definição lata:
volúvel como o vento quando vira...

Tu nunca percebes o meu humor

Tu nunca percebes o meu humor,
é incrível... E tenho muita pena
porque a tua alma não é pequena
e as palavras tornam-se um rumor...

Poderia ser tanto mas é só temor
da falta de compreensão: serena!
Tanto stresse junto e bem vista a cena
o filme é todo sobre desamor...

E receio ainda que se propague
a doença pelo tecido afectado:
que gangrene, se ampute, se apague...

Vendo-me do meu humor amputado
como queres que a bomba não se ressinta?!
Já me chega saber que há quem me minta...

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Eu permaneço em insanidade, coberto pela terra, à espera da decomposição que já se processava mas, enfim, não vos quero tirar o prazer de dizerem que começou agora, agora que me fizeram o funeral.

Um dia interessante,
desafiante,
como nenhum que o antecedeu!
Finalmente, o meu corpo cedeu!

Caí num buraco,
sentia-me fraco,
não conseguia sair e estagnei
como aqueles sobre os quais me enganei
(que terão direito a muitos poemas no futuro).

Larvas, de insecto,
mantenho-me quieto,
devorado por seres rastejantes
que sempre estiveram lá, duros, inquietantes.

Insectos, que voando,
vão-me incomodando, ou amando,
conforme a perspectiva, com a sua fúria belicosa,
tratam-me por dentro até a matéria ser toda ela viscosa,
própria dos momentos em que avança a decomposição,
própria de alguém que perdeu a sua própria razão.

O cheiro, nauseabundo,
se o sentissem por um só segundo
iriam inundar-se de lágrimas até à regurgitação
mas os meus amigos alados fazem disso a sua nutrição
e gostam muito dos meus conteúdos estomacais,
via oral, via fetal, via uretral, uma qualquer mesmo acessos fecais.

O calor, insuportável,
absurdo, desagradável
ao ponto de fermentar vivo o leite que me incorpora
e lentamente a água que me constitui se evapora
e chove no buraco onde vim parar, absolvido,
pois os meus juízes já se tinham decidido!

Há quem diga que fui devotado à violência
apenas por me terem consagrado à ausência
da nossa sociedade, igualmente carnívora, por uns momentos
em que, condoídos, se lembraram destes tormentos,
chamemos-lhe assim, poderiam ser os seus
e então ficaram com medo e rezaram a um deus,
um qualquer, que a fé é movida pelo interesse,
à semelhança da nossa sociedade que me aborrece
pela sua, digamos, ilusão, por outras palavras: fantasia!,
que é fazer da verdade crua e dura uma bela hipocrisia!

Morri!

Mas não acabou aqui a minha viagem!
Pois em mim germina a semente!
Vou para a cova mas não vou sozinho,
levo em mim lembranças de cada vizinho,
ovinhos recheados de uma geração de seres desprezados,
alguns dos quais injustamente devido à sua importância,
insectos que colocaram em mim os seus ovos recheados
e que se perpetuarão no tempo com a devida distância,
seja esta física ou temporal, seja isto o mesmo, quem quer saber?
Lambam-me as feridas que o pus parou e ninguém o quer beber,
que interessa agora que estou tão infectado? Sinto-me realizado
pois fui o escolhido e sou o padrinho de toda um buraco abafado
que tem uma lápide de mármore, bela e bem cinzelada,
e diz coisas bonitas que agora me interessam nada,
agora que, jazendo, tenho um fim maior do que o meu fim, um meio
de dar vida àqueles em que agora mais verdadeiramente creio:
os insectos! Despojados de sentimentos e algo satânicos,
eficazes, rastejantes, voadores, penetrantes, mecânicos,
como tudo deveria ser neste buraco, chamemos-lhe sociedade,
onde eu morri sem poder ter dito a verdade,
onde eu morri para dar corpo aos que me sucederão nos ares,
onde esvoaçarão para espalheram o caos até outros lugares,
lugares igualmente putrefactos.

Até lá...

Até lá nada de novo.
Até lá tudo igual.
Até lá...

Não te esqueças de me enviar
as fotos daquele dia especial...

Até lá nada de novo,
sempre o mesmo...

Não te esqueças de me ajudar
a conquistar um lugar especial...

Até lá eu simplesmente não existo
mas não devia estar já habituado!?

Não me ignores mais! Estou farta!
Sim, se for assim está muito bem!

Até lá... Não tenho nada a fazer
que não tenha já feito, que novidade!

Não me toques, não dessa maneira,
que me agrides com o teu jeito.

E até lá...

Estou a ver...

Olha!
Olha!
Olha!
Olha!
Olha!
Ali!
Lá!
Além!
Olha, de novo!
Olha, outra vez!
Olha, novamente!

Vi!
Vi!
Vi!
E não vejo mais...

Olha, de novo!
Olha bem, com atenção!

Estou a ver...

sexta-feira, 15 de junho de 2012

The place we came from is the place we are going to

We all must live day by day until we die and then we are killed by the boredom we are trapped in, under ice, over dust, you must know what is the best for you until we cry and then we are going to the grave and we can't behave the same way we used to do because it's so not cool when you prefer to lie and wai until the worms come and eat the flesh, slowly, till the bone, and suck the marrow, like and arrow pointed to the heart of lovers until they find how much can love betray and until the day they are reborn and then all the happiness is so fake because they know their fate, just miss the rate they will be decomposed, feeding others, until the soul is also food and fuck man, this is a waste of time... Pain! In the back! Until you come back to the place you were born, the hole, the whole, the womb, the tomb, the dark, the unknown, the place, the place, the place we came from...

Então foi assim...

Quero muito mais mas não sei se devo,
está na ponta da língua mas não se diga,
como é que consigo mascarar o enlevo?
Afinal não tenho mais olhos que barriga.

Diz-me, sem rodeios, o que pensas,
agora que sabes o que eu penso,
a curiosidade com que me adensas
não é menor do que à que pertenço,
não sabes o mal que me tens causado
por desconhecer a tua resposta,
ninguém acredita que tenha acabado
quando se sabe bem do que se gosta.

Queria mais mas sei que não devia,
estava na ponta da língua mas não disse,
como consegui esconder o que havia?
Afinal não comeria se não o visse.

Diz-me, sem rodeios, o que havias pensado,
agora que sabes o que eu pensei,
a curiosidade com que tenho ficado
deve-se àquilo que acho que sei,
não sabes o bem que me foste causando
por ter a certeza dos meus receios,
agora respondo-te que vou andando
pois os fins justificaram os meios.

Quereria mas não calhou e agora?!
Agora...

Enquanto uns preferem milho outros preferem umas folhas de alface mas duvido que estejam bem alimentados.

Vejo as fotos e estás lá e não vejo a razão para não estares cá; como é possível não estares mais no sítio que reservei para ti à custa de tudo o resto que tinha para mim e hipotequei para levar-te ao céu que recusaste pois nesse outro planeta que aluguei para nós ao custo de reis e rainhas e outros favores continua inabitado e disponível e a degradar-se profundamente e custa a ver e não quero perceber sequer o que se passou...